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Benvenuta a Casa Monaco

Benvenuta a Casa Monaco

A primeira lição que aprendemos na vida é que nem tudo (ou quase nada) acontece como planejamos. Quando saí da casa de minha mãe, há alguns anos, foi o momento que minha ficha caiu em relação a isso. E mesmo com essa bagagem de já me virar sozinha a um tempinho, ir morar em outro continente sem conhecer absolutamente ninguém requer uma boa dose de tranquilidade para lidar com imprevistos. E quando se escolhe o caminho mais difícil pode ter certeza que tais imprevistos não vão faltar.

Chegando na Itália, tive que dividir meu tempo entre conhecer a cidade e a busca desesperada por um apartamento (deve ser o karma da minha vida). Sempre tive a certeza que queria morar com italianos para uma imersão mais real na cultura daqui. Procurei em sites de aluguel, grupos de Facebook. Mandei mensagem pra dezenas de pessoas e visitei alguns poucos apartamentos. E nada definitivo. Sempre um pedido de desculpas por não poderem ainda dar uma resposta. Aí meu prazo foi acabando… O dia de fazer o check-out no hostel tava chegando… E nada de achar um teto. Logo foi batendo aquela inveja do pessoal que estava feliz em contente dividindo apê com outros brasileiros. Mas bati o pé e, depois de ter que ficar de favor no sofá dos outros e comer todas as unhas, tive minha resposta tão esperada:

“Dopo un’attenta riflessione abbiamo deciso che sei la persona giusta per abitare in Casa Monaco. Per cui… benvenuta!”

Aê!!! Não dá para imaginar a minha felicidade naquele momento. Iria morar barato, numa área central com três italianos, gente finíssima.

Sala de jantar do apartamento

Sala de jantar do apartamento

Junto com o anseio de morar com italianos vinha a ideia de fugir de qualquer zona de conforto. Levei a sério o conselho de fugir de brasileiros e me tornei a intercambista fantasma: está nos grupos do Facebook, no grupo do Whatsapp, mas ninguém nunca viu. Comecei a sair com os amigos dos meus co-inquilinos e foi quando eu percebi que o italiano é mais complexo do que parece.

Na Itália, existem diversos dialetos e sotaques. E aqui em casa são três! Cada um fala o italiano de uma forma diferente. Da pra sentir o cheiro de queimado dos meus neurônios tentando entender uma conversa. Mas foi quando participei de um jantar entre amigos o momento em que me senti mais desorientada em toda a minha vida.

Diálogos paralelos, dialeto do sul, pessoas falando com o cigarro pendurado entre os lábios e o eterno tuntz tuntz tocando ao fundo. O meu cérebro, cheio de vinho barato de caixa de papelão, precisou desligar e viajar para algum lugar distante para que os danos não fossem permanentes.

O quê que eu to fazendo aqui....

O quê que eu to fazendo aqui….

Mas o que posso dizer? Está valendo a pena. Em um mês morando aqui evoluí mais na língua que em todos os anos de aula de italiano no Brasil, mas isso todo mundo já está cansado de saber. Foi animador entender tudo que foi dito nas aulas da universidade, mas adestrar o cérebro para pensar em italiano no dia-a-dia é um passo além.

Falando em universidade, no meu primeiro post estava decidida sobre o que ia estudar. Fiquei semanas escolhendo as matérias perfeitas e adivinhem? Nenhum horário batia. Tive que fazer uma triste escolha e desistir de uma das matérias. Sendo assim, retiro o que disse.

Enfim, faz 48 dias que cheguei aqui e muita coisa já aconteceu. Às vezes (principalmente quando não consigo achar as coisas no supermercado) parece que foi ontem que cheguei, às vezes parece que tem uma vida. É difícil elencar o que merece ser escrito e ordenar os fatos na cabeça, mas a certeza é que tudo de estranho, de bom e de ruim que acontece que faz com que o intercâmbio seja definitivamente uma experiência a ser vivida.