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Caindo controladamente (ou a virtude de se levantar)

Caindo controladamente (ou a virtude de se levantar)

Um pouco de espaço pra se perder é essencial. Não digo se perder no sentido de sair de casa e errar algumas ruas até o encontrar o destino. Mas se perder de fato: Profundamente, intensamente, apaixonada e desesperadoramente.

Quantas vezes não ficamos acomodados em nossas zonas de conforto? Quantas vezes não damos o passo seguinte por não sabermos onde iremos repousar nossa cabeça quando a noite chegar?

Mas é sempre assim, não é? Um dia o tempo nos obriga a fugir da estagnação e encontrar movimento novamente. Afinal, não há movimento sem um pequeno distúrbio na paz. Em uma aula um professor me disse que andar é cair controladamente, pois a cada passo deslocamos nosso ponto de equilíbrio e paramos a queda com um de nossos pés. E repetimos o processo por quilômetros e quilômetros. Acredito que isso não se aplique somente ao nosso andar no sentido físico. Algumas vezes precisamos cair controladamente para levar nossas vidas a um novo rumo. Mesmo que isso signifique tropeçar vez ou outra. E, claro guardar algumas cicatrizes escondidas.

Em alguns momentos afundamos até a mais profunda lacuna de nossa existência. Imóveis, petrificados, catatônicos. Em outros, atingimos picos de euforia tão intensos que parece que o mundo inteiro conspira e comemora junto conosco.  Momentos ao vento. Rodopiam um pouco sobre nossas cabeças e passam. Ou nos engolem profundamente. E é aí precisamos cair controladamente e aparar a queda. Descobrir o que há do outro lado.

Surpreendentemente (ou não), algumas vezes andamos em círculos e acabamos voltando ao último ponto de partida. E confesso: esse sempre foi um dos meus maiores medos: voltar ao começo. Descobrir que na verdade o que há do outro lado do vale é exatamente igual ao que eu já havia visto no começo. Mas aos poucos estou descobrindo que, ao contrário do que eu gostaria de acreditar, o novo também pode nos levar de cara ao abismo e que o antigo talvez possa ser mais excitante do que foi um dia (ainda estou tentando me convencer quanto à validade desta última opção).

Claro, nada é igual após um período de tempo. Muita coisa muda em uma hora, um minuto ou mesmo em um segundo. Mas ainda me sinto um pouco aprisionado quando vejo o meu presente refletido no passado. Porém, muito menos do que me sentiria anos atrás.

Fui ao intercâmbio buscando algumas respostas sobre mim mesmo. Voltei sem elas, mas encontrei um pouco de paz no silêncio das perguntas. Ano passado em particular eu dei de cara no chão muitas vezes (literalmente também, cortesia do inverno finlandês) ao ponto de encontrar fragmentos de mim que estavam mascarados há muito tempo (não, não estou falando de fraturas expostas, juro. Continuo sem nunca ter quebrado nenhuma parte do meu corpo). E isso não é necessariamente ruim, pois, além de aprender a cair controladamente, precisamos aprender a olhar para o alto ao tropeçarmos. Algumas vezes a paisagem pode nos surpreender e assim, ao levantarmos, possamos ver o mundo de um novo ângulo.

O que meu retorno significa pra mim? Não tenho a menor ideia. Estou descobrindo aos poucos. Percebi que passamos tanto tempo presos em meio ao concreto que sufocamos em respostas prontas e passamos a vida toda nos debatendo em busca da próxima dose de “verdade”. Então, estou tentando levar a vida com um pouco mais de leveza. Se eu não posso mais ir até os bosques encontrar um pouco de respiro, talvez não haja tanto problema assim… Afinal, agora um pouco daquilo tudo já está dentro de mim.

A princípio, o meu retorno pra mim representou uma queda, tanto que eu mal podia controlar meus pesadelos ligados à volta ao Brasil. Mas eu me lembrei que também havia caído tantas vezes no exterior… Então, quando faltava um pouco pra perder o equilíbrio, coloquei o próximo pé no chão. Admito, ainda estou tentando me equilibrar, mas mesmo se tropeçar e der de cara no chão, espero poder virar meu rosto e encontrar uma nova paisagem brilhando sobre mim naquilo que eu já julgava conhecido e assim me levantar novamente. Mesmo que isso só aconteça depois de observar o céu até que as estrelas tenham desaparecido entre os primeiros raios de Sol.

Aguardando meu retorno no aeroporto de Helsinki - Vantaa

Aguardando meu retorno no aeroporto de Helsinki – Vantaa

De Helsinki à Lisboa

De Helsinki a Lisboa