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Coisas que sinto e coisas que NÃO sinto falta do Brasil

Coisas que sinto e coisas que NÃO sinto falta do Brasil

Este foi um post que o Fred nos enviou em seus últimos dias como intercambista do CsF, em Londres. Ele já está no Brasil e no próximo dia 20 de maio estará no 5º Encontro ‘Com Legenda’ para nos contar como foi sua experiência como estudante em outro país, em 2014.

E ai pessoal, tudo bom? Estou em Londres há quase dez meses e já está vindo uma sensação de fim, então para começar a me acostumar, decidi mencionar as coisas que eu sinto falta do Brasil — e ficarei feliz em voltar e ter de volta — e as coisas que sentirei eterna falta quando voltar para o calor belo-horizontino.

Coisas que eu sinto falta do Brasil:

A Comida
Como qualquer intercambista ou imigrante que sai do Brasil, muitos sentem falta de guaraná, coxinha, arroz com feijão — que embora exista aqui, não é a mesma coisa —, pastel, churrasco, brigadeiro, beijinho, biscoito passatempo, feijoada, pão de queijo e muitos outros pratos que pararam de fazer parte do cotidiano há algum tempo. Ter de cozinhar, por si só, já muda um pouco as coisas; já enjoei de macarrão, miojo e omelete! Teoricamente dá pra fazer tudo isso em casa, mas uma coisa é ter sempre que se dar ao trabalho de preparar esses quitutes por conta própria, e outra é ir na esquina e comprar já feitinho (e geralmente com um resultado melhor que o caseiro).

Existem alguns — muitos, por surpresa minha — restaurantes brasileiros por Londres, mas achar uma coxinha de qualidade é tarefa dura. Assim como os chineses devem achar os restaurantes chineses nada fieis à comida deles, os brasileiros erram bastante no sabor. Apenas imagine a minha decepção em pagar £3 (cerca de R$12) numa coxinha que veio apimentada e com a massa dura.

A Família e os Amigos
Novamente, qualquer pessoa que ficar longe da família e amigos por tanto tempo sentirá falta. É bem legal e estranho ao acabar de chegar, poder começar literalmente do zero, estar rodeado de gente que você não conhece, ninguém te conhecendo também. Todo mundo fica mais aberto a conhecer gente nova. Mas depois de um tempo isso acaba e vira uma vida normal. O pessoal daqui é bem animado e festeiro, mas não substitui as amizades duradouras do Brasil. O fato de não poder viajar pra visitar os amigos e família é uma parte difícil, mas o Skype e Facebook mantém a distância um pouco menos dolorosa.

O jeito caloroso dos estranhos                                                                                                                                                                                 Aqui eu aprendi que os londrinos tem dois modos: no dia-a-dia serão fechados, cada um seguindo sua rotina e não param pra “bater papo” como a gente faz no Brasil. Difícil a chance de você fazer uma nova amizade no metrô, mesmo ele estando lotado. Cada um com seu fone de ouvido, lendo seu livro ou jornal. A menos que estejam bêbados, aí entra o segundo modo: voltar para casa de night bus, o serviço de ônibus noturno que substitui o metrô, é uma boa aventura, sempre conhecendo gente no processo, que para mim dura cerca de duas horas. Me sinto um pouco mais em casa, mas o restante do tempo passa uma idéia de individualismo bem grande.

Coisas que eu NÃO sinto falta do Brasil:

A organização e educação
Brasileiro trabalha de cara fechada e por obrigação. A moça do supermercado no final do expediente irá te tratar da forma mais grossa e torcer para que você vá embora o mais rápido possível. Em Londres é um contraste bem grande; a pessoa que estiver te atendendo certamente te perguntará como você está, se você quer ajuda para empacotar as compras enquanto ela passa, e enquanto isso bate um papo por educação, e vai no SEU tempo, não no dela. Até o momento que você estiver com as sacolas na mão, o próximo cliente não será chamado. Isso é válido em qualquer supermercado que eu já fui aqui. Essa educação faz com que seu dia fique um pouco melhor, no geral.

Transporte público
Dispensa explicação, certo? O London Underground cobre a cidade de canto a canto, funciona praticamente sem atraso, apesar de ser caro é o mais eficiente que já vi na vida. É muito difícil se perder mesmo na primeira vez usando, e caso isso aconteça, haverão funcionários para te ajudar à vista, com certeza. Até em Paris passei dificuldade, não conseguia achar os funcionários e quando conseguia eles não falavam inglês. Esperar mais de 5 minutos por um trem é algo raro e as pessoas se incomodam. No Brasil, ou pelo menos em BH o tempo mínimo que eu esperava era 15 minutos entre ônibus. A linha que pára na minha universidade é o DLR (Docklands Light Railway), um trem que passa por cima da terra e é um pouco mais lento que o Underground. A parte legal é se sentar no vagão da frente, porque não tem cabine de motorista, se você se sentar na primeira fila dá pra “fingir ser o motorista”, ou se sentir numa montanha russa bem entediante. Eu não me segurei e gravei um pouco do trajeto:

A falta de segurança
No Brasil, fala-se muito que a melhor forma de evitar a violência é “não dar mole”, geralmente acompanhado de uma longa lista do que seria “dar mole”: ficar escaneando o ambiente o tempo inteiro, não deixar relógio ou celular a mostra, não usar headphones brancos típicos de iPhones, não parar no sinal vermelho de madrugada, colocar a carteira no bolso da frente, etc.
Pra alguém que mora aqui, essa constante vigilância parece absurda. As chances de você ser assaltado na rua por qualquer pessoa é mínima por diversas razões: não costuma acontecer assaltos aqui, somente roubos, os chamados pickpockets, mas isso ainda é bem dificultado pelas mais de 7 mil câmeras públicas espalhadas pela cidade. Terei que me readaptar a não andar com o celular na mão o tempo todo quando estou na rua.

A dificuldade de viajar
Na minha vida toda, eu nunca visitei a região norte, nordeste ou centro-oeste do Brasil. Viajar a turismo é caro, estadia é inviável. O Brasil tem muita coisa bacana que até nós brasileiros não conhecemos por falta de investimento/poder de compra nosso. Estou indo assistir um show dos The Kooks no próximo final de semana em Cardiff. É até meio surreal imaginar que eu estou indo para outro país assistir um show e voltar. Mais surreal ainda pensar que estou pagando £10 ida e volta. Quarenta reais não daria para ir pra São Paulo, que dirá ir e voltar para outro país. Essa e outras viagens ficam mais fáceis graças ao Megabus, um serviço de ônibus econômico que vai para toda a Europa, praticamente. Com boa vontade você vai para Paris por £20, se animar encarar 9 horas de viagem.

Não digo que estou triste ao voltar para o Brasil, mas impossível negar que sentirei muita falta de certas facilidades e como o sistema funciona aqui.

Aproveitem suas coxinhas, futuros intercambistas!

A volta está próxima...

A volta está próxima…