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Considerações finais de um 2015 muito louco

Considerações finais de um 2015 muito louco

Dizem que o signo de peixes é o signo dos sonhadores. Dos lerdos, inocentes, meio bobos, daqueles que são cheios de histórias na cabeça e vivem em outro mundo. Dizem também que, por ser um signo da água, ele não segue uma linha reta no direcionamento da vida; ele flui, às vezes calma e pacientemente, mas sempre tem aquela onda que quebra violentamente na praia. A água se adapta. Como ela, eu, pisciana por vocação, venho me adaptando a um contexto ao qual jamais fui apresentada. Eu via em filmes como era estar longe de casa, se virando sozinha, falando outra língua, vivendo as novidades. Posso fazer uma lista dos filmes que me davam essa vontade irrepreensível de ir embora, a maioria deles comédias românticas que ainda hoje não me canso de assistir. Eu queria mesmo ir embora. Muitas pessoas não entendem qual a necessidade disso, pessoas na minha família mesmo nunca entenderam. Não é sobre ir para nunca mais voltar, é sobre ir e ter a certeza de que existem possibilidades além daquelas, mundos além daquele, pessoas e pensamentos diferentes que podem te ensinar melhor que qualquer livro ou psicólogo como lidar com o seu próprio contexto.

Em três meses eu aprendi que não tenho problemas. Reclamo por hábito, porque faz parte do personagem, porque foi assim que me ensinaram que era pra ser. Aprendi que eu não sou o que vejo no espelho, não sou o que eu achava que era, não sou quem eu vou ser amanhã. O Ciência sem Fronteiras é uma alegoria. Aprendi que o mundo é grande o bastante, mas é pequeno demais. Aprendi que não só de burrice é feita a sociedade, mas que é você que escolhe se vai ou não ver o bem nas pessoas. Aprendi que não odeio a política, e que sou mais militante do que pensava. Aprendi que esse tempo todo eu estava indo no caminho certo. Não parece, mas ainda estou.

O Ciência sem Fronteiras é um presente que meus pais me deram sem saber. É só o começo, pelo que parece. Oficialmente, temos mais sete meses dentro desse sonho que não saiu como planejado. Sete meses para fazermos direito tudo que saiu dos trilhos desde que chegamos. Faculdade, acomodação, transporte, comida, clima. Sete meses para finalmente fazer as pazes com a ilha que nos acolheu, mesmo que pareça que tudo nos força a querer voltar. Voltar, a gente sempre volta. Mas não agora. Dublin é a casa que escolhemos e que digam o contrário, mas Dublin nos escolheu também.

Quero aproveitar mais, fazer mais coisas, ir a mais lugares. Fiz pouco desde que cheguei aqui. Acho que me perdi no meio de tantas fichas caindo. Mas o mar fica logo ali, 2 km de acordo com fontes confiáveis. A água, que sempre foi a metáfora maior em todos os textos que escrevi e em cada impressão ou reflexão que tenho com relação a essa experiência de intercâmbio. Por falar nela, me pediram pra dizer como vem sendo. Vai indo bem, mesmo que eu não saiba mais o que dizer quando me perguntam dos meus dias; como se magicamente tudo fosse diferente só porque estou do outro lado do oceano, inserida numa cultura bem diferente da minha – mas são só os detalhes que são diferentes. Antes eu também imaginava que tudo fosse mudar drasticamente, que até o ar fosse diferente no tal Primeiro Mundo. O ar é diferente sim, minha pele super alérgica que o diga, mas não tem dessa de primeiro, segundo, terceiro… Estamos todos no mesmo nível, estamos todos perdidos, somos todos mutáveis. Aqui também tem dias ruins, o trânsito também engarrafa, os preços também podem ser absurdos. Aqui também às vezes me sinto sozinha, mas também tenho uma grande família. Aqui também tem cerveja, também tem natal, também tem gente que não sabe andar no centro e tropeça em você. Aqui tem um sorvete incrível que não tem em BH, mas BH também tem um sorvete incrível que não tem aqui.

Dublin é minha segunda casa, agora. O inverno finalmente chegou, e a realidade é que não tem mais o que dizer sobre essa experiência. Pelo menos por enquanto, chega.

E para aqueles que sofreram com um 2015 inesperadamente sofrido, Armandinho tem uma boa frase pra esses últimos dias de dezembro.