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De volta ao começo: Por que Finlândia?

De volta ao começo: Por que Finlândia?

Meu primeiro texto para o projeto Com Legenda possuía o seguinte título: “Por que Finlândia? (E outros assuntos)”. Ele foi escrito pouco antes de minha viagem, no qual eu começava me apresentando e expondo alguns dos motivos que me fizeram vir para o país em que estou agora (e que logo irei abandonar). Então, agora que tudo está chegando ao final, irei fazer uma pequena releitura de meu primeiro texto.

Olá, meu nome é Pedro, estou concluindo agora no primeiro semestre de 2015 meu período de intercâmbio na Kajaani University of Applied Science, Kajaanin Ammattikorkeakoulu em Finlandês (nome este que achei que não seria capaz de pronunciar até o fim do meu intercâmbio, mas estava errado). Agora já fazem 10 meses desde que pisei pela primeira vez no lugar que se tornou meu lar: Kajaani, uma cidade que tem por volta de trinta e oito mil habitantes, localizada mais ou menos no centro da Finlândia, mas com estrutura digna de cidades muito maiores e uma beleza ímpar.

Durante o período de minha viagem, tive cada vez mais certeza de que havia escolhido o lugar certo para meu período de intercâmbio e, claro, pude aprender a responder mais a fundo as perguntas que tanto me faziam antes de vir para cá.

Em meu primeiro texto, procurei responder alguns fatos básicos sobre esse país no norte da Europa que poucas pessoas ouvem falar ao longo da vida, como sua localização, seu idioma, um pouco sobre seu clima… Tudo ligado apenas ao que eu havia lido até então. Agora, com um pouco mais de propriedade, creio que possuo algumas informações a mais.

Onde fica a Finlândia? Longe. Longe para padrões europeus, também. Ao contrário de meus colegas na Europa continental que podem se deslocar de forma eficiente e (relativamente) barata de um país para o outro, além de possuírem várias opções de voos por companhias de baixo custo, o transporte para outros países não é tão fácil e barato quando se está por aqui. Com a falta de trens para outros países (além dos que ligam o país com a Rússia), o transporte não fica tão barato assim. Quando viajei para outros países a partir daqui, sempre tive de voar a partir de Helsinki. Ou seja, antes de sair do país ainda tinha que encarar uma viagem, entre 8 e 9 horas de trem. Como o país está relativamente distante dos destinos mais populares e não recebe tantos voos, os preços também não são tão amigáveis quanto os que saem da Alemanha, por exemplo.

Campo florido na primavera

Campo florido na primavera

Folhas secando no outono

Folhas secando no outono

Mas isso não foi algo que fez com que eu me arrependesse em nenhum momento. A Finlândia fica “longe de tudo”, porém, possui uma beleza natural cativante e uma nova surpresa a cada dia. Para ser bem sincero, quando visitava outros países eu sempre ficava um pouco arrependido de estar perdendo mais um dia e suas surpresas por aqui. A Finlândia fica longe de tudo, mas tão perto quanto possível de onde eu adoraria estar.

Ao andar de trem, esperar no aeroporto ou ler alguns avisos específicos, costumamos ver a presença de três idiomas: finlandês, sueco e inglês. Os dois últimos são relativamente raros em Kajaani, que possui maioria esmagadora de falantes cuja língua materna é o finlandês. Ah sim, em um supermercado daqui podemos encontrar avisos em russo!

Tentei aprender finlandês nesse semestre, mas falhei miseravelmente conforme mencionei no texto “Sobre pequenos problemas do cotidiano”.  Mas admito que é extremamente divertido até hoje tentar andar pelas ruas tentando ler as placas. Uma garota finlandesa me disse que minha pronúncia é muito boa, mas não acredito que isso tenha muito valor quando não se conhece o idioma. E quando fui para a República Tcheca, uma amiga me disse que quando tento ler palavras em tcheco eu acabo falando com sotaque finlandês. Bom, pelo menos é divertido.

Mas o tal trava-línguas finlandês que apresentei no primeiro texto continua impossível para mim. (“Hurskastelevaisehkollaismaisellisuuksissaankohankin hän toimi?”)

Lago Oulu uma hora após a meia noite do dia 30 de maio

Lago Oulu uma hora após a meia noite do dia 30 de maio

Agora, sobre o frio. Esse assunto é relativamente delicado, ainda mais quando tento explicar para alguns amigos brasileiros. No meu primeiro texto, mencionei que o país possui as quatro estações bem definidas e infraestrutura para o frio. Bom, mantenho minha opinião! Todas as estações que vi por aqui foram extremamente lindas (estamos na primavera atualmente) e bem únicas. Por exemplo, o Sol quase não aparecia no inverno e, agora no fim da primavera, quase no início do verão, não temos mais noites. O contraste é maravilhoso (apesar do Sol trazer dificuldades para dormir). Para algumas pessoas, os 12 graus que estão fazendo nesse exato momento (21:57 do dia 18 de junho) podem ser dignos de um “credo!”, mas é tudo uma questão de costume. E essa temperatura só é “real” quando se está na rua. Os aquecedores mantêm todo estabelecimento com uma temperatura equilibrada ao longo do ano todo e, nas ruas, basta que você se vista adequadamente e se adapte (o que em poucas semanas acontece, garanto). Quando fui para países com clima mais quente, não parava de pensar em como queria voltar por aqui para não morrer tostado. E ah, o frio você resolve colocando uma roupa adequada. Calor já não é tão fácil assim de se resolver na rua.

O inverno parece congelar até mesmo o tempo

O inverno parece congelar até mesmo o tempo

Eu pensava que no inverno talvez as pessoas ficassem quase que toda hora dentro de suas casas, mas não: mesmo no inverno os finlandeses continuam caminhando, praticando esportes e seguindo suas vidas. Admito que fiz o possível para ser assim também e foi uma experiência fantástica. O país não parou nenhuma vez devido a nevascas ou algo do tipo. Mesmo porque, se não houvesse estrutura pra isso, o país ficaria parado por um boooom tempo.

Não me arrependo nem um pouco de minha escolha e estou louco para voltar para cá. E  já sinto falta das coisas para as quais disse adeus: neve, aurora boreal, o chão escorregadio que me fez cair tantas vezes no inverno (ok, desse não sinto tanta falta)… E ainda encontrei algumas boas surpresas por aqui, como a culinária.

Para mim, a Finlândia não se destaca por sua culinária do dia a dia, que é bem… Europeia, digamos… Batata, batata, batata, batata, porco, batata, porco e batata grande parte do tempo. Mas por seus fantásticos doces, chocolates (o melhor chocolate que já provei na vida é finlandês) e produtos de padaria. Existe em Kajaani uma padaria chamada Pekka Heikkinen & Kumpp que produz os melhores pães, lanches doces e salgados que já provei em minha vida! Além de um proprietário extremamente simpático.

Por aqui também tive a surpresa agradável de encontrar alguns pedaços bons de mim mesmo que havia deixado no passado. Aproveitei esse período para fazer uma reavaliação de minha vida e resolvi buscar características boas do meu passado para unir com o presente, além de descartar algumas coisas ruins. Bem que dizem que a Finlândia é um país maravilhoso para se relaxar e ter contato consigo mesmo.

Sobre o meu curso por aqui: admito que foi talvez minha única decepção. Não que eu não tenha gostado, mas não foi o que eu esperava… Aprendi muitas coisas valiosas, mas também tive a certeza que o mercado de jogos talvez não seja bem o mercado para mim.

Então, se meu perguntarem hoje por que escolhi a Finlândia, acho que posso responder da seguinte forma:

É um dos lugares mais fantásticos que eu poderia escolher pisar e não haveria escolha melhor para mim.