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Depois da volta…

Depois da volta…

Embalando minhas malas para voltar, cada objeto colocado na mala lembra uma experiência vivida. Durante meu período na Europa, conheci dezenas de pessoas do programa Ciência Sem Fronteiras. Pessoas de todos os cantos do Brasil, com histórias e experiências de vida muito diferentes da minha. Às vezes eu tinha a sensação de que realmente “todo mundo está no CsF”. Mas não. Somos uma minoria muito privilegiada e de sorte. O programa tem se expandido e abriu oportunidades para muitos estudantes sim, mas quando estamos daqui de longe, vemos de quantas melhorias o Brasil carece. “Será que fui um gasto importante do dinheiro público?”( Há pessoas que chegam ao ponto de questionar isso.) “Turismo sem fronteiras?” Não vou perder o seu tempo explicando o quanto essa frase me irritou. É sabido que viajar é sem dúvidas uma das formas mais intensas e enriquecedoras para uma pessoa, um estudante.

Abri meus olhos pra poder comparar melhor tudo que vejo, entender melhor tudo que o nosso país ainda precisa de tempo pra melhorar, e também me envergonhar com quanta coisa já poderia funcionar no nosso país e simplesmente não funciona por ignorância do brasileiro.

Falar sobre o nosso país foi pauta frequente em qualquer tipo de reunião entre ‘brasucas’.

“Embalando minhas malas para voltar, cada parte colocada na mala lembra uma experiência vivida.”

“Em dez dias pego minhas malas e volto pra casa...

“Em dez dias pego minhas malas e volto pra casa… “

A Escola de Design – UEMG tem qualidade de ensino superior à que eu estudei aqui na Irlanda, e outros amigos em outros países também me afirmaram isso. Mesmo cursando um curso distinto do meu no Brasil, percebi o quanto os projetos e professores da UEMG são muito bons e diferenciados.

Contudo é evidente a carência de uma infraestrutura  coerente com o curso que estudamos e todo o suporte necessário ao estudante como laboratórios, biblioteca com computadores equipados, internet na escola, academia, eventos de lazer, apoio financeiro para transporte. Tudo isso é comum aqui e é algo que transforma totalmente a relação aluno – universidade. Acredito que a volta de tantos estudantes que viveram essa experiência possa mover as universidades pra pouco a pouco melhorar nesses aspectos. Mas não depende só de nós. Ainda não entendo como um aluno brasileiro tem mais incentivo para pesquisar fora do país do que dentro dele ( R$400,00 é pouco demais, né?).

Sketchbook, Letícia, Irlanda

Sketchbook, Letícia, Irlanda

Quanto a minha vida pessoal, chega a ser difícil mensurar quão intenso todos esses momentos foram pra mim. Reescrevo aqui o que postei no meu perfil do facebook, dez dias antes de voltar pra casa: “Em dez dias pego minhas malas e volto pra casa, de onde vim com uma mala e onde me espera a vida e amores que deixei. Hoje estou em Praga e sem planos terminei minha noite em uma peça inspirada na Metamorfose de Kafka, em um cômodo, de menos de vinte metros quadrados, vinte pessoas. Um ator. Daqui dez dias eu acordo em outro lugar, e esses dez meses vão ser por muito tempo lembrados. Minha história e minha identidade tão revirada com tanta informação e tantas sensações. Eu volto a mesma Letícia, mas muito mais Letícia do que eu era.”

Hoje já se foram quase três meses de volta pra cá. Muita coisa mudou, muita coisa nunca muda. Muitos planos e sonhos foram realizados, e agora já não são mais sonhos. Sobram novos planos e dúvidas sobre o futuro, é claro.

E cada dia que passa depois da volta, uma ou outra experiência revive em minha mente. É como dizia um grande amigo que fiz na Irlanda, muitas vezes a viagem só começa “depois da volta”.

Cenário da peça A Slight Ache, Letícia, Irlanda

Cenário da peça A Slight Ache, Letícia, Irlanda