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Design aqui, design lá

Design aqui, design lá

A flexibilidade do currículo é uma característica marcante do curso de design no Canadá. Essa liberdade de escolha possibilita a criação de um currículo diversificado e que atenda às escolhas pessoais do aluno, mas será que há contras para este modelo? Quero discutir aqui as minhas impressões sobre o ensino na NSCAD em contraste com o ensino na UEMG.

A NSCAD utiliza o modelo de Fundação, onde o primeiro ano é composto por matérias de áreas distintas como fotografia, pintura, design, escultura, entre outras. Os alunos tem autonomia sobre o processo de escolha dessas matérias. Os cursos funcionam através do sistema de “major” e “minor”. O curso “major” é o curso principal que toma a maior parte da sua grade, como por exemplo, Design Interdisciplinar. O curso “minor” é o curso que toma menos matérias na sua grade, como exemplo, Ilustração. Há algumas matérias obrigatórias, mas o aluno monta o seu currículo de acordo com o seu interesse, possuindo um número de créditos mínimos para ser considerado um aluno em tempo integral. Esse sistema garante autonomia e um direcionamento de acordo com preferências pessoais.
Trata-se de uma realidade muito diferente do que temos na UEMG, mas acho importante frisar que há um preço a se pagar por essa liberdade. Há dois pontos que vou considerar como negativos nesse processo, o primeiro é a ausência de uma base teórica sólida como há no ciclo básico da UEMG, pois aqui não há estudo de Filosofia, Psicologia, entre outros assuntos importantes da mesma maneira que ocorre na UEMG. Percebo isso também pela base dos alunos do segundo ano, que são os que eu mais convivo em sala de aula. Há muita experimentação e pouca teoria (do que vale a experimentação sem uma base teórica para ser questionada?), e apesar de parecer o paraíso para alguns, isso gera profissionais pouco críticos e com referências limitadas.

Curso a matéria Design Issues que lida principalmente com os desafios da profissão em debates envolvendo questões filosóficas, éticas e econômicas. A maioria dos meus colegas está no terceiro ou quarto ano do curso, e por incrível que pareça, não tiveram contato com o pensamento crítico sobre o design em nenhuma outra matéria (baseio essa informação em relatos de colegas). Isso me leva a imaginar que é possível que alguns alunos que optem por não fazer esta matéria (não se trata de uma obrigatória) se formem sem refletirem sobre a responsabilidade que carregam enquanto designers.
O segundo fator negativo desse modelo é a ausência da noção de turma – coletividade. É possível criar laços com os colegas das diversas matérias, mas quando há turmas diferentes para cada uma delas, não há o estabelecimento de relações sólidas como ocorre na UEMG. Claro que isso gera um indivíduo mais adaptável aos ambientes e possibilita uma troca de conhecimentos mais diversa, mas as conexões humanas que criamos durante a faculdade são fatores muito importantes para a nossa formação acadêmica e gera noções de coletividade como cidadãos. Há mais dificuldade em estabelecer relações próximas que possibilitem parcerias profissionais se comparado ao modelo de classe que há na UEMG.

Por outro lado, o enfoque na prática traz também incontáveis benefícios, como oficinas e matérias que trabalham as mais diversas técnicas de produção. Estou cursando a matéria Letterpress e é muito interessante poder trabalhar com máquinas tão antigas. Outra diferença positiva que é importante salientar é o tamanho das turmas. A maioria das matérias possui turmas com no máximo quinze alunos! Isso facilita a interação com os professores e gera um debate muito interessante tanto nas matérias teóricas quanto nas práticas. Esse fator é também um bom contraponto ao fato de não haver uma turma fixa, pois com um menor número de pessoas, fica mais fácil interagir com os colegas.

Acredito ser um debate interessante e pertinente para a nossa universidade encarar outros modelos de ensino e saber o que agregar e o que passar adiante. Claro que não me proponho a usar este espaço para isso, pois se trata de uma discussão muito mais ampla e cheia de pormenores, mas achei interessante apresentar esses fatores que foram marcantes para mim.

Letterpress

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