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Dublin, minha nova casa

Dublin, minha nova casa

Coincidência ou não, encontrei essa imagem nas vésperas da minha viagem. Alguém, em algum lugar, passava pelo mesmo processo de reflexão que eu – não exatamente alegre, não exatamente triste. É quando bate a certeza de que, independente de como ou para qual direção, tudo vai mudar. Era dia 02 de setembro de 2015, e as malas estavam prontas para o dia seguinte:

Meu nome é Marina Lara Diniz, estudante de Design de Produto pela UEMG e participante do Ciência sem Fronteiras, chamada 199/2014 – Irlanda.

Desde o momento que tomei a decisão de me inscrever no programa Ciência sem Fronteiras, venho enfrentando uma mistura de sentimentos que muitas vezes não me deixa dormir. A emoção de saber que minha primeira viagem internacional seria rumo à Europa, para estudar um assunto que gosto tanto, se unia à ansiedade de chegar sozinha em uma cidade desconhecida onde as pessoas não falam meu idioma. E, por isso, antes eu não tinha uma boa resposta para quem perguntava sobre como é, como eu me sentia, como estavam os preparativos. Na verdade, eu também queria saber. Como é dito no Brasil, minha ficha ainda não tinha caído e, mesmo agora, uma semana depois de me instalar completamente, ainda tenho certa dificuldade em acreditar que estou mesmo aqui. Que aconteceu.

Todo o processo de inscrição e acompanhamento do programa foi exaustivo e demorado; não me lembro mais quantos documentos enviei e quantos momentos angustiantes eu passei esperando resultados de provas e homologações durante o último ano. Foram muitas pesquisas e muitas perguntas sobre cada detalhe: como é morar fora do país, como é a adaptação em uma faculdade estrangeira, como é o clima, a comida, o transporte, etc. Nos últimos anos me despedi de alguns amigos que foram estudar na Alemanha, na Irlanda, na Hungria, nos Estados Unidos e outros, mas mesmo tendo o apoio e a certeza deles de que tudo daria certo, o medo do desconhecido ainda batia forte. Seriam 18 horas de vôo com uma escala no Rio de Janeiro e outra em Amsterdã, e eu estaria sem sequer um conhecido por perto e sem acesso à internet para comentar os detalhes com deus e o mundo. Tudo foi tranquilo, até mesmo a parte mais complicada da viagem: foi extremamente difícil ver família e amigos ficando para trás enquanto eu entrava na sala de embarque. O aperto no peito de saber que só estaria com aquelas pessoas de novo no próximo ano começaram no momento em que abracei todos eles. Estávamos todos felizes, sabíamos que a breve separação faz parte da nova experiência e estávamos ansiosos por todas as coisas novas que eu iria conhecer. É engraçado como a saudade é uma bagagem que a gente não despacha.

Meu primeiro dia em Dublin foi o resumo do que seriam todos os meus dias nessa cidade: muita informação, muita animação, muitas descobertas. Àqueles que possam querer saber porque escolhi a Irlanda como país de destino, confesso que até agora realmente não sei, mas digo isso: não poderia ter escolhido melhor. Dublin é um dos destinos mais comuns de brasileiros que querem recomeçar a vida em outro lugar, então tem um pedacinho de casa em cada canto da cidade. Talvez por isso, e por tantas outras pessoas de outros países chamarem esse lugar de “casa”, é que a cidade seja tão amável. Existem aqueles que escolhem ser amargos e descontar suas mazelas em outros, como em qualquer lugar, mas isso é irrelevante quando existe tanta vida e alegria pelas ruas. Nos parques, nas ruas, nos pubs, tem sempre alguma música, muitas risadas e uma quantidade incrível de coisas a se fazer. Em Dublin só fica parado quem quer – a cidade te absorve tão rapidamente e de tal forma que, de repente, você não sabe mais se é um brasileiro na Irlanda ou um irlandês que sempre viveu no Brasil.

Show no St Stephen's Green, um dos parques centrais de Dublin

Show no St. Stephen’s Green, um dos parques centrais de Dublin

Vista do porto de Dún Laoghaire, ou Dunleary, ao sul de Dublin

Vista do porto de Dún Laoghaire, ou Dunleary, ao sul de Dublin

As pequenas grandes diferenças entre os dois países vão se apresentando a você à medida que você se apresenta também. Os ônibus de dois andares, a direção em sentido oposto, as cervejas servidas em copos de 500 ml, o vento frio e incessante, a chuva fina que de repente vira um furacão e depois se acalma novamente, as casas de muro baixo ou até mesmo sem portão ou grade, dizer “sorry” no lugar de “com licença”, o feijão que vem enlatado e é doce, a água que se bebe da torneira – e que vem fria e quente. Características que com o tempo se tornam parte do nosso dia-a-dia.

A instituição de ensino na qual nós vamos estudar – e por “nós” quero dizer eu e os outros 60 intercambistas brasileiros que moram na minha acomodação – vai receber um total de mais 200 alunos brasileiros em suas quatro faculdades. O Dublin Institute of Technology (DIT) é um instituto de ensino superior multicampi localizado no centro da cidade. A escola de Engenharia Mecânica e Design, onde vou continuar a cursar Design de Produto, está inserida na Faculdade de Engenharia e Edificação e está recebendo 64 brasileiros esse ano. De acordo com o coordenador, são 55 a mais que em 2014. É realmente incrível como uma faculdade de médio porte tem estrutura suficiente para receber tantas pessoas de fora, quando no Brasil nossas faculdades mal dão conta de seus próprios alunos.

Assim como a cidade em si, o DIT oferece um grande número de atividades a seus frequentadores – são projetos, programas, sociedades e núcleos que vão de esportes e trabalho voluntário à projetos e feiras técnicas. Nas próximas semanas saberei mais detalhes sobre o que meu campus oferece especificamente, e estou aguardando ansiosamente o começo das aulas. Conhecer a cidade como quem vive sua rotina sete dias por semana é muito diferente de passear pelas ruas como turista, mas espero poder viajar pelo resto do país e ver, realmente, o que é a Irlanda, essa ilha verde que lá de cima do avião já se mostrou tão acolhedora.

Espero que o programa Ciência sem Fronteiras não acabe indefinidamente, e que tenhamos boas notícias do governo brasileiro nos próximos meses com relação a isso. Essa é uma oportunidade incrível, que todos merecem ter. Faço votos para que essa experiência enriqueça não só o meu modo de ver e viver minha vida, mas que também nossas faculdades e universidades no Brasil reconheçam todo nosso aprendizado por aqui.

Que fique aqui um ensinamento irlandês para a vida:

Tóg go bog é!

Ou, em bom português: fique de boa!