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Nova York is not America

Nova York is not America

O primeiro vislumbre que eu tive de Nova York foi de dentro do avião. Não vi nada de arranha-céus, ou luzes deslumbrantes. Nada de glamour. Olhei pra baixo e vi a malha ortogonal de algum bairro do Queens, com seus prédios pequenos, iluminado por aquelas mesmas luzes amarelas que iluminam as ruas das cidades no Brasil. O aeroporto JFK, onde o meu avião pousou, já é, por si só, um grande spoiler do que você vai encontrar na cidade. Nova York tem cerca de oito milhões de habitantes, dos quais mais de um terço fala uma segunda língua dentro de casa. Ou seja, tem gente de todo jeito, de todo lugar do mundo, expressando suas culturas em línguas, roupas e balangandãs bem diversos. Antes de chegar aqui, eu ficava muito preocupada em encontrar uma cidade muito caótica e difícil de lidar. Mas para quem está acostumado com a vivência de grandes cidades brasileiras, Nova York é um piece of cake. A vida em Manhattan pelo menos é bem tranquila. Em comparação com o Brasil, não tem muito trânsito, é bem fácil de localizar devido ao esquema de numeração das ruas e avenidas e andar de metrô é bem intuitivo e fácil de aprender. Aliás, quase todo mundo se desloca usando o transporte público, e ninguém se importa de andar alguns quarteirões para chegar onde precisa. Newyorkers andam muito! No dia a dia, é raro conhecer alguém que use o carro para ir ao trabalho, por exemplo. Acredito que isso aconteça porque o metrô é bem eficiente, além das linhas cobrirem distâncias faraônicas. Mesmo com tantas qualidades, foi inevitável reparar em como as estações são sujas e não é raro você ver um, dois ou três ratos andando pelos trilhos. Como eu moro no próprio campus da universidade, geralmente não tenho muita necessidade de me deslocar por grandes distâncias, e acabo passando a semana aqui na região do Village. Os prédios que formam o campus da New School ficam instalados especificamente em Greenwicth Village, Toda a região é bem famosa por ter testemunhado toda a cena gay e os riots que deram origem à organização do movimento LGBTT durante as décadas de 60 e 70. Diferente de muitas universidades brasileiras (mas não da UEMG), o campus é descentralizado e os prédios ocupam diferentes ruas aqui do bairro. É uma área fortemente residencial, mas com muitas lojas, restaurantes, bares e cafés. É ótimo para dar uma volta, passear durante o dia, ir aos parques e também sair à noite. Eu, e todos os brasileiros que estão aqui pelo Ciência sem Fronteiras, moramos em um desses prédios do campus, o Kerrey Hall, que vem a ser o alojamento mais novo da universidade, inaugurado no início de 2014.

The New School - University Center

The New School – University Center

Aqui moram pessoas de todos os gêneros e os apartamentos não necessariamente são divididos só por meninos ou só por meninas. É uma política bem diferente de muitas instituições brasileiras, que ainda costumam separar os alunos de acordo com a ideia do gênero binário. As políticas em relação à vida sexual dos estudantes também parecem ser bem menos arcaicas: em todos os corredores do dormitório existem folhetos informando sobre a prevenção de DSTs e um stand de camisinhas gratuitas.

Kerrey Hall - Corredor oitavo andar (onde eu moro!)

Kerrey Hall – Corredor oitavo andar (onde eu moro!)

 Kerrey Hall - Corredor oitavo andar

Kerrey Hall – Corredor oitavo andar

Como o Kerrey Hall funciona no mesmo prédio que o University Center, temos reunidos em um único lugar uma série de serviços que facilita muito a nossa vida diária. Aqui no alojamento temos acesso a uma lavanderia, um ateliê de artes, salas de música, salas de estudo e uma área de convivência onde ocorrem pequenas festinhas (desprovidas de álcool), e noites de filme. No University Center, temos acesso aos laboratórios de informática, biblioteca, estações de impressão e plotagem, e a uma cafeteria, que fica aberta durante boa parte do dia. Toda essa infraestrutura é realmente maravilhosa, e torna a vida bem conveniente. Mas é claro, que nessa vida maravilhosa, de morar na quinta avenida e desfrutar de todas essas coisas bacanas não é perfeita. Nova York também está cheia de coisas não bacanas. Algumas delas: Mendigos estão por toda parte. Pessoas te abordam pedindo dinheiro, ou ficam sentadas nas calçadas esperando alguém jogar algum trocado. Obviamente, os EUA é um país muito rico, mas nem por isso estão livre de uma brutal desigualdade social, que sim, salta aos olhos. Além da triste situação dos moradores de rua, é facilmente perceptível que os empregos menos glamourosos ainda são massivamente ocupados por negros, latinos e outras minorias de estrangeiros. Não tenho dados estatísticos, mas parece que assim como no Brasil, a desigualdade social aqui ainda permeia relevantemente as questões raciais. Infelizmente. Outra coisa bem chata são os assédios. O termo pra cantada, ou fiu-fiu, aqui nos EUA é catcalling, e sim, se você for mulher vai acontecer. Lembra daquele vídeo que ficou famoso na internet ano passado? (https://www.youtube.com/watch?v=b1XGPvbWn0A) Pois é, é tipo aquilo mesmo que rola, e é tão irritante e nojento quanto no Brasil. Encontrei poucas pessoas que tinham uma noção clara da realidade brasileira. A grande maioria, não tem nem noção do tamanho geográfico do nosso país. Algumas delas acham que brasileiros falam espanhol, que no Brasil não tem semáforo, dentre outras coisas bizarras. Essa ignorância quase que generalizada só é perdoada quando nos damos conta do quão pouco nós também conhecemos sobre os países das outras pessoas.

 Evento de boas vindas para alunos internacionais da New School

Evento de boas vindas para alunos internacionais da New School

Conversei com um menino do Arzebajão um dia, e além de eu não ter ideia da onde fica o Arzebajão, não sabia o nome da capital nem da língua que eles falam. Não sabia nada de nada. A única coisa que eu sabia a respeito do Arzebajão era o fato dele existir. Falando nisso, a New School é famosa por abrigar um grande número de alunos internacionais. Coreanos são a maioria dos estrangeiros, e não é raro você frequentar alguma aula com mais asiáticos do que ocidentais. Indianos, chineses, e nós, brasileiros, também temos presença relevante por aqui, e é realmente muito inspirador poder fazer parte dessa comunidade internacional.