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O mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes

O mesmo homem não entra no mesmo rio duas vezes

Assim que ingressei na Universidade, ouvi de um professor no primeiro dia de aula que eu estava iniciando uma das melhores jornadas da vida e que, por se tratar de uma Universidade pública, eu deveria sugá-­la ao máximo. Essas palavras sempre ficaram na minha cabeça e, para quem me conhece um pouco pelo menos, sabe que é o que tento fazer. Fui representante de turma, participei do diretório acadêmico, fiz projeto de iniciação científica, participei ativamente do movimento estudantil, tornei a Universidade minha segunda casa, enfim. Para minha sorte, tive também a oportunidade de estudar através de um intercâmbio no exterior em uma Universidade bastante conceituada em relação ao design. Embora muitas pessoas fossem inicialmente um pouco contra  a minha decisão, eu estava convicto de que era isso que eu queria. Ficar longe de parentes, ficar em um país totalmente diferente, perder um ano de Universidade, frases como essas eu ouvi constantemente, mas juro que, em nenhum momento, me fizeram desistir do que eu queria. Mas para isso eu precisava de me esforçar. E muito. Conversei bastante com amigos que passaram anteriormente pelo mesmo processo. Ouvi histórias e dicas que me faziam começar a traçar um rumo ao país a ser escolhido e, junto à alguns amigos da minha sala, começamos a desvendar os enigmas escondidos por trás de cada edital do Ciência sem Fronteiras. Cheguei até a exagerar no número de perguntas para várias pessoas, me perdoem, perguntas tolas até, mas que me fizeram decidir que a Itália seria os país que eu deveria ir. Porém, era necessário saber italiano, obviamente. Eu tinha exatos um mês e meio desde o lançamento do edital até a data da prova de italiano para aprender do zero toda a gramática italiana. Abdiquei de algumas horas de sono e de alguns finais de semana com amigos para estudar o máximo que eu conseguisse sozinho. Não sou daqueles alunos que estudam muito não, pelo contrário. Entretanto sabia que esse pequeno sacrifício seria necessário para conseguir seguir adiante no meu desejo. E, como sabem, estou agora aqui em Torino, norte da Itália, comendo uma pizza, e não digo tomando um gelato por que está bastante frio para isso.

Torino

Torino

Quem me conhece sabe que eu não sou único nesse mundo. Existe um outro cara, bem parecido comigo, que também iniciou sua jornada de intercâmbio. Porém em um continente totalmente diferente. Embora pareça bastante assustador, eu e meu irmão,  que na maioria das vezes fazíamos coisas juntos, decidimos que essa era uma oportunidade de vivenciarmos experiências distantes um do outro. Conhecer culturas totalmente diferentes para, quem sabe, ao retornarmos, possamos desfrutar desses diferentes aprendizados juntos. Para quem não tinha ficado mais de três dias longe um do outro, dezesseis meses (no mínimo) será bastante tempo, mas sabemos que será muito importante para ambos. Talvez a maior dificuldade que vivenciei aqui seja a saudade da família. Saudade era uma palavra bastante vaga para mim até então, sabia seu significado de dicionário, mas confesso que sentir na pele é um tanto quanto mais forte. E, falando em dificuldade, para ser bem sincero, não passei por nenhuma muito grande ainda. Queimar o arroz de vez em quando, ou ter que maneirar nos gastos para aproveitar as viagens, são coisas normais para um iniciante. A língua se aprende. No inicio passei um pouco de aperto por não sabê-la muito bem, mas agora confesso que tenho esquecido do nosso velho Português. Achava bastante estranho isso acontecer, esquecer uma língua que sempre falou em tão poucos meses. Porém, conversando com amigos de outras cidades, vi que não é só comigo que está acontecendo isso. Pensar em italiano o tempo todo, ter sempre frases prontas para falar em supermercados ou mesmo pra pedir informações na rua, me fizeram misturar um pouco as duas línguas. Um bom sinal talvez. Se pudesse dar um conselho a quem terá a oportunidade de fazer um intercâmbio é fugir um pouco de brasileiros. Sair da zona de conforto. Não que tenhamos uma cultura ruim, pelo contrário. A cada dia que passa consigo valorizar coisas do Brasil que me fazem muita falta (comida). Mas estamos aqui para conviver com outra cultura, embora às vezes possa ser bem chato. Como já disse anteriormente eu cheguei aqui sem saber falar nada, nada mesmo, de italiano. Toda vez que ia à um restaurante, por exemplo, um amigo brasileiro sempre pedia as coisas para mim. Sempre perguntavam as informações que eu necessitava. Vi uma hora que isso precisava mudar; eu precisaria aprender a perguntar e até mesmo responder quando perguntado. Conseguir se inserir em meio a italianos não é uma tarefa muito simples, é necessário vender muito seu peixe. Italiano não gosta de estrangeiro. Nenhum. Mas abrem exceção para o Brasil, confesso. Italiano não fala inglês. Eles tentam até, mas ainda sem muito sucesso. Com um pouco de jeitinho brasileiro, de fato consegui aprender a fazer um número considerável de amigos italianos. Não que tenha deixado de lado meus amigos brasileiros, mas tento conciliar ambos para aproveitar da melhor maneira possível. Outro conselho é para aproveitar e muito. Viajar, estudar, ir pra festas ou mesmo ficar um dia todo deitado na cama. Tudo isso é permitido, mas é preciso dosar bem cada um. Eu por exemplo, não consegui ficar um dia todo dentro de casa. Pode fazer o frio que for, preciso sempre sair, ver pessoas, nem que seja sozinho no parque ouvindo música. Prefiro acordar todos os dias cedo e sair pra explorar a cidade, pegar um trem sem destino certo. Já consigo perceber que não sou o mesmo mineirinho que embarcou naquele avião. Não sou o mesmo de ontem e tenho certeza que não serei o mesmo de amanhã. As experiências que vivencio aqui me modificam a cada dia, ou no meu jeito de pensar ou mesmo de agir. Experiências que talvez eu não vivenciaria com tanta facilidade se não tivesse ficado aquele um mês e meio assentado na cadeira estudando italiano. O futuro, os próximos meses, ainda são incertos. Não sei ainda meus próximos destinos, meus próximos passos, as pessoas que vou conhecer, tão pouco quem eu serei. Mas que bom! Se soubesse também, não teria graça nenhuma fazer um intercâmbio.

 O futuro é o próximo passo

O futuro é o próximo passo