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Preparativos para a viagem: do Brasil à minha nova casa

Preparativos para a viagem: do Brasil à minha nova casa

A pergunta agora é: como se preparar para vir pra Coréia. Que fique bem claro que você está vindo para o outro lado do mundo, mesmo. Se você cavar um buraco saindo do Sul do Brasil em direção ao núcleo da terra, e passar despercebido por ele (porque quem liga pra ele neh?), e continuar cavando, você acaba chegando, aqui.

Mas, por mais estranho que pareça (para mim não parece nem um pouco), a maior preocupação antes de vir é a preparação psicológica. Não em relação a saudade de casa, do cachorro e tal, mas porque aqui é tudo do avesso, mesmo. Inclusive a imagem que a gente tem da Ásia no Brasil é toda zuada. Então procure relatos de estrangeiros por aqui e já venha preparado. Eu vou falar mais da sociedade aqui nos próximos posts, mas esse são mais coisas técnicas.

Antes de fazer uma viajem internacional, o melhor é lembrar que tem coisas que você se vira depois, e tem coisas que você TEM que levar, porque se você não levar, você nem desce do avião.

Documentos

Acho que estas são as principais coisas que você não se vira sem. Não tem dinheiro, choro, reza ou briga de mãe que te faça continuar a viagem sem os documentos necessários.Tenha os documentos em mão. Não coloque na mala, você vai precisar deles durante a viagem.

O documento mais básico é o passaporte carimbado com visto, quase todos os países vão checá-los, inclusive as escalas nos aeroportos, e na Coréia não é diferente. Outra coisa legal de ter com você é uma carta de aprovação da faculdade ou qualquer coisa que deixe bem claro que você está indo estudar legalmente, o tratamento que você vai receber provavelmente vai mudar muito com isso. Principalmente na Coréia, onde estar em uma boa faculdade é tão bem reconhecido quanto jogar em um grande time de futebol no Brasil. Leve sempre também uma impressão do e-mail de confirmação de compra das passagens. Muitas vezes não é requerido, mas pode ser bem útil em caso de problemas. Do Brasil para a Coréia não é requerido um cartão de vacina, mas para passear aqui em volta acaba precisando, então é bem legal providenciar isso também. A carteira de identidade e CPF são necessários durante todo o percurso em céu ou solo brasileiro, mas assim que só tiver azul embaixo do avião, pode colocar os dois na mochila e esquecer lá (você ainda precisa deles quando voltar).

Passagem

Esse é um belo exemplo de “foda-se, eu já dei a grana, agora eles que se virem” do CNPQ. Basicamente, o CNPQ vai te pedir o número da sua conta universitária, e mandar, de repente, 16 mil reais (no meu caso) nela. Esse dinheiro é para as despesas iniciais e provavelmente vai desaparecer bem rápido. Até aí tudo bem, você está rico por 15 minutos e finalmente viu a sua conta universitária com 5 dígitos. Mas, os problemas começam quando você decide gastar o dinheiro. Porque no Brasil os bancos não querem que você gaste o seu precioso dinheiro.

Primeiro problema: limite de gastos da conta bancária. Assim como você recebeu um tolo de dinheiro de uma vez, você vai gastar tolos de outra vez. Passagens de avião para literalmente atravessar o mundo e seguro saúde para um ano no primeiro mundo não são nem um pouco baratos, e na maioria das vezes são comprados pela internet, e na internet se paga com cartão de crédito ou transferência direta, e eu ainda não conheci nenhum estudante que tivesse um cartão de crédito que possa pagar isto.

Mas vamos dizer que seus gastos no shopping ultrapassem R$5000 mensais e você já tem um cartão de crédito com esse limite. Você também vai precisar de um cartão de crédito internacional porque a maioria das empresas que prestam estes serviços cobram em dólar e tem base fora do país.

Ainda não existe uma solução universal para este problema. Muita gente aqui recorreu a agência de viagem. Basicamente a agência compra tudo para você e te vende de volta com uma porcentagem de lucro, mas que pode ser parcelada ou paga em dinheiro vivo pro tiozinho do caixa. Mas eu já conheci muita gente que teve sérios problemas com agências de viagem (principalmente as online) e chegou a perder a viagem ou ficar dormindo dois dias no aeroporto esperando uma solução, e está há anos tentando receber o dinheiro de volta. Então como eu só tinha este dinheiro e tempo contado, chorei para os adultos me emprestarem um cartão de crédito decente e comprei tudo direto do site das companhias.

O outro problema é escolher as companhias. Eu fiz o caminho mais curto. Fui no Google e pesquisei “passagem Brazil Korea”. Daí apareceram um monte de sites de compra e comparação de passagens aéreas. Peguei a mais barata, que por sorte era a mais rápida. Fui no site da companhia e comprei direto do site. Depois acabei descobrindo que a companhia era bem boa e legal de viajar e eu tinha pegado uma promoção. Por acaso a companhia é a Turkish Airlines (tem um post velho sobre a viagem de avião). Mas o esquema é bem simples, quanto antes você comprar, mais barato. Teve muita gente aqui que pegou um pouco de dinheiro por fora e comprou a passagem de ida e volta juntas. Acabou sendo um bom negocio porque as passagens ficam bem mais baratas assim, e você pode pegar o dinheiro que sobra da passagem de volta e comprar algum bonequinho de KPOP para seu namorado.

Seguro Saúde

seguro saúde eu escolhi o que parecia ter mais gente escolhendo. Nesses casos é legal ter muita gente para influenciar nas decisões. Contratei o seguro saúde da Assist-Card, um pacote especial para o Ciências sem Fronteiras. Eu acabei precisando dele. Teve uns rolos aqui e eu acabei indo parar no hospital e precisei de cirurgia. Os primeiros contatos com a Assist Card da Coréia foram lindos. A mocinha me disse logo para onde ir, conversou em coreano com umas pessoas pra mim e resolveu tudo na emergência. O problema foi quando ela ligou para a Assist Card no Brasil. Primeiro eles demoravam horas e horas para responder qualquer coisa. Horas e horas que eu estava deitado no leito do hospital precisando de cirurgia, sem saber falar coreano, sem celular, computador ou troca de roupa. É nessas horas que seus amiguinhos te salvam, lembrem sempre que eles são sua família aqui.

Mas depois de muito rolo e quase 20 horas de espera por uma resposta eles disseram que não iriam pagar nada, nem mesmo a emergência, basicamente um ‘desculpe mas você que se foda’. Tive que pagar tudo com meu dinheiro e fiquei pobre.  Mas, depois minha mãe teve a brilhante ideia de ligar lá e lembra-los que eu era um estudante do Ciência Sem Fronteiras, e que nós éramos uma comunidade muito grande que se comunicava através do Facebookis, e que eles iriam perder muitos clientes assim. Daí eles viraram uma companhia linda de novo. Me arrumaram tradutor, me designaram um bom responsável que me ligava sempre para ver se estava bem, pagaram minhas voltas no hospital e exames até ficar tudo bem. Depois de alguns meses até me pagaram de volta o atendimento de emergência e a cirurgia. Então posso falar mal o quanto quiser, mas no final, eles foram muito bons e eficientes.

Bagagem

Meio delicado para mim falar disso. Eu tenho que admitir que sou hippie com esse tipo de coisa, sempre que preparo mala é para ir pra fazenda, montanha, ou visitar um amigo, raramente faço malas para ficar em hotéis e fazer passeios. Quando viajo eu penso no que eu posso precisar como emergência, se não for emergência, eu arrumo por lá.

Primeiro coloquei lanterna, capa de chuva, mascara e esses tipos de coisa.

Depois coloquei remédios e produtos de higiene básica.

Depois 2 trocas de roupa para clima médio (camiseta e calça/ bermuda), 2 trocas de roupa para frio (meias mais grossas, blusa de manga comprida e jaqueta), e uma troca de roupa para super frio (camisa térmica, calça térmica, luva, cachecol, gorro e meias bem grossas). Mesmo que não esteja frio quando você chegar, vai esfriar um dia, e é legal ter roupa para sair no frio para procurar mais roupa de frio. Tenta pegar roupas que sejam confortáveis, mas que também te deixem decente para sair a noite.

Depois uma toalha para corpo, uma para rosto e quantas meias e roupas de baixo couberem no compartimento de meias e roupas de baixo.

Depois coloquei coisas que gosto de ter para passar o tempo como gaita e instrumentos de desenho.

Calçados foram uma havaiana, dois all star e a bota eu levei no pé.

Depois disso ainda sobra muito espaço na mala. Aí enche com aquele monte de frescura que a gente não precisa, mas é legal ter. Aquela blusa mais desconfortável do mundo, mas que é bonita pra sair a noite, ou a calça horrorosa boa para dormir.

Eletrônicos, notebook e máquina fotográfica eu gosto de levar na mochila. Os carregadores vão na mala.

Coisas específicas da Coréia:

Algodão aqui eh caro, se sobrar espaço traga suas roupas legais, roupas de baixo, roupas de cama, toalhas, esses trem tudo. Se não tiver espaço sobrando, dá pra comprar as coisas aqui, o CNPQ dá dinheiro para essas coisas de qualquer jeito. Se você vier para a KAIST vai ganhar um travesseiro e um cobertor, mas eles são uma p***.

!! Importante sobre roupas !! Na Coréia e outros lugares frios as pessoas usam secadoras. Ao mesmo tempo que elas são lindas e secam sua roupa em 40 minutos, elas são do mal e encolhem todas as suas roupas de algodão na primeira secagem. Sim, só na primeira, depois pára. Cada um teve um jeito de lidar com isso aqui. Tem gente que até hoje não usa a secadora e deixa as roupas secarem penduradas no quarto. Eu usei a secadora, encolheu tudo, comprei cuecas novas e o resto foda-se, dá pra usar encolhido. Aqui todo mundo usa roupa apertada mesmo.

Me falaram que produtos de higiene e desodorante eram caros aqui. Não são. São mais baratos do que no Brasil e melhores. Aproveite a magia dos produtos de beleza coreanos.

Moeda/ Câmbio

Todos os meus problemas com câmbio eu resolvi com o VTM (Visa Travel Money). Ele é basicamente um cartão de débito, aceito como um cartão de crédito internacional. Você coloca dinheiro nele, em reais, ai magicamente vira dólar com uma taxa de câmbio razoável (menor que em casas de câmbio). Quando você usa ele, o valor é descontado do seu saldo em dólares, não importa se você comprou em Iêns, Wons ou dinheiro turco.

Levei também dinheiro vivo para a viagem. R$ 200,00 para a viagem nacional, caso precisasse de um taxi em São Paulo (normalmente tem um ônibus que passeia entre os dois aeroportos) e para comer no aeroporto. Para a viagem internacional levei US$ 100 por dia, caso resolvesse sair do roteiro e passear por aí. Mas para ir direto para onde você tem que ir uns US$ 50 por dia dá. Parece muito dinheiro, mas se você vai viajar de avião com uma mala monstra, tudo fica caro. Comida no aeroporto é caro, a mala faz você ter que pegar táxi e por aí vai.

Ligação Internacional

Isso foi o que mais me deu trabalho na viagem. Eu expliquei para minha mãe que ia atravessar o mundo e que ligava para ela em dois dias, que se o avião caísse ia passar no Jornal Nacional, e que a falta de notícias significava que estava tudo bem, que eu faria contato em dois dias. Mas, depois de tanto tempo sozinho no avião, tanta coisa estranha para todo lado, e a consciencia de que está todo mundo preocupado com você, faz você ligar para casa. Foi aí que começou o drama.

Não vou contar ele todo aqui. Mas basicamente no aeroporto da Turkia não tinha lan house, a wireless era paga, e muito bem paga e a única opção foi comprar um cartão de telefone internacional e usar o orelhão do aeroporto. O problema era que para usar o cartão você tinha que digitar o código de reconhecimento para usar cartões, depois do big digitar o número do servidor, para ligar para o Brasil você tem que digitar o servidor da Suécia, depois você digita o pin code do cartão com 9 dígitos, depois você digita o código do país, o código da cidade e o número de telefone. Depois tive que brigar com o atendente turco FDP até ele levantar a bunda do banco dele, vir até o orelhão comigo e descobrir que realmente ele tinha me vendido um cartão que não funcionava. Aí sim eu pude completar o procedimento acima e ligar para casa.

Depois de chegar no hostel ou na faculdade isso fica tranquilo. Use a internet, Skype, Google Talk e seja feliz com as maneiras simples e de graça de se falar com o Brasil. Todo canto tem wireless na Coréia.

Moradia

Tem muita coisa para falar sobre isso. No mínimo um vídeo longo ou um posto dedicado ao nosso querido dorm. Mas vou falar de forma geral.

Eu posso falar sobre o meu caso. Eu vim para a KAIST, aqui todos os alunos internacionais do Ciências Sem Fronteiras tem que morar nos dormitórios do campus. Sinceramente eles são bem legais e baratos. Você não pode escolher, eles são sorteados, mas normalmente eles tentam deixar brasileiros juntos. Mas meu primeiro roomate foi de Cingapura, e foi uma experiencia bem legal.  Então se você vem para a KAIST, não se preocupa com isso, vai estar tudo resolvido antes de você chegar.

Nas outras faculdades tem vários casos. Tem faculdades que não dão moradia, você se vira, outras dão moradia e comida inclusa. Cada uma é um caso.

Realmente é um monte de coisa para preparar. E considerando a velocidade e facilidade para se preparar coisas no Brasil. É melhor começar o quanto antes.