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Sobre a grande arte de dizer adeus

Sobre a grande arte de dizer adeus

No momento que escrevo este texto, estou dando uma pausa nos preparativos para minha volta. Faltam exatamente três dias para que eu deixe Kajaani. Quatro para que eu deixe a Finlândia e a Europa. Cinco para que eu chegue ao Brasil e encerre um ciclo. Sim, estou contando.

Claro, mal posso esperar para abraçar os meus amigos, minha família, minha cachorra… Voltar para minha cama confortável (A minha daqui é beeeem ruinzinha). Mas ainda assim, é difícil dizer adeus para um período tão ímpar em minha vida.

Nesse último mês tudo se tornou um longo e cansativo adeus. Minhas últimas idas ao supermercado, meus últimos passeios no bosque, minha última vez comendo em certo restaurante, minha última vez pagando o aluguel… Já consigo começar a sentir saudade de cada uma dessas coisas. Isso tudo é um tanto quanto torturante, mas ao mesmo tempo gostoso. Há algo muito belo na saudade: é o sinal de que algo valeu a pena.

A partir do mês que vem, os locais que verei serão os mesmos de antigamente, mas eu já não sou o mesmo.  E sei que, quando voltar para Kajaani, nem que seja só para visitar (isso há de acontecer!), eu já não serei o mesmo que sou hoje.  Então, a arte de dizer adeus é um tanto quanto confusa, pois é uma mistura de melancolia e ansiedade. Quem serei eu quando voltar para meu ponto de partida? Para onde estarei direcionado dessa vez? Quando poderei voltar para esse lugar que tanto aprendi a amar?

Se você até possui interesse em um dia fazer intercâmbio mas tem um certo medo ou acha o período do Ciência Sem Fronteiras longo demais, pode tentar sem medo: passa mais rápido do que você espera e te muda de uma forma impressionante, além de te ensinar a valorizar mais tudo a sua volta. E também te ensina a dizer adeus desde o início. E algo que aprendi ao longo dessa vida com um bom tanto de namoradas e amigos de outras cidades, família distante e etc: saudade machuca, mas também ajuda a fortalecer os laços. De certa forma, dizer adeus também pode faz parte do reencontro.

A distância é o que dá sentido ao reencontro, não importa se é de um metro ou de milhares de quilômetros, ela é a responsável por grande parte da tensão que nos move em direção aos reencontros.

Ontem fui dizer adeus ao lago Oulu e, pela primeira vez desde que cheguei aqui, vi uma raposa. Foi um adeus com um gosto de novidade. E isso foi reconfortante. Pois mesmo num período de despedidas, não deixo de conhecer coisas novas. Não importa quantas vezes nós digamos adeus, não importa se pensamos que nada vai ter graça depois de uma experiência, quando chega a hora de colocar o pé para fora de casa, o coração sempre vai bater um pouco mais forte do que da última vez. Nada é o mesmo. E nenhum ciclo é 100% fechado. Tudo se renova a cada passo que damos.

Curiosamente estou ouvindo agora a mesma música que eu tanto ouvi no dia do vestibular da UEMG. O início do meu primeiro grande adeus. E acredito que eu talvez esteja começando aos poucos a me animar ainda mais para o que vou viver daqui para frente. É como um teatro: o palco é o mesmo, mas os atores e os cenários mudam a cada dia, as vezes sutilmente, outras de forma drástica. Veremos o que acontecerá daqui alguns dias!

E assim é a arte de dizer adeus: com uma lágrima escorrendo de um olho e um sorriso no rosto. Com as nuvens de chuva ficando para trás e o céu se abrindo no horizonte. E espalhando um pouco de nós a cada lugar que o vento nos leva.

Andorinha voando sobre o rio Kajaani

Gaivota voando sobre o rio Kajaani