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Sobre a obrigação de se divertir

Sobre a obrigação de se divertir

Como disse no outro post, os finalmentes do meu intercâmbio estão chegando e junto com a minha “síndrome de vira-lata” crônica outras inquietações tem tomado conta desse peito brasileiro. Sempre que converso com alguém que tô com saudadinhas, surpreendentemente recebo a mesma lista de perguntas e na mesma ordem:

1) Aposto que você não quer voltar hein?!

2) Por quantos países você viajou????

3) Tá ficando bêbada todo fim de semana, né… Aproveitando bastante!?!?

Então… Essa semana me peguei questionando o que é o tal “aproveitar bastante” e sobre essa pressão que a gente tem diariamente de estar sempre seguindo essa imagem estereotípica de diversão que tem na mídia. Por que gente, eu me divirto horrores ao passar uma tarde no meu quarto bordando, me divirto litros cozinhando um prato diferente por três horas, e me divirto mais ainda comendo esse prato que demorou três horas pra fazer sentada na minha cama vendo qualquer série no computador. E a grande bomba desse post é: descobri no intercâmbio que REALMENTE não gosto de viajar.

Sim gente, não gosto de viajar. E eu não vou me desculpar por isso.

Entendo as pessoas que adoram conhecer lugares novo e dormir em hostels sem segurança e gastar tooodo o seu dinheirinho em uma experiência, entendo mesmo. Mas eu não me divirto assim. Sim, eu viajei pra alguns países e sim, foi lindo, tirei muitas fotos lindas, conheci muitos lugares lindos e sou grata por isso, simplesmente não acho que quanto mais melhor. A vida não é uma competição de quem se diverte mais, e a nossa felicidade não devia ser baseada em no quanto as pessoas que estão vendo as suas fotos pensam que você está se divertindo: Viajar pra mim é exaustivo, eu me canso pra arrumar, me canso pra chegar no lugar, me canso de andar o dia todo vendo mil coisas que nunca vi (e fico emocionada horrores) mas eu simplesmente volto pra casa exausta de tudo e nunca com vontade de ir de novo.

Durante todos esses meses aqui o meu maior desespero foi o medo de estar perdendo alguma coisa, e eu me forcei tanto a organizar viagens, a combinar com pessoas, a pesquisar passagens e simplesmente eu percebi que… era pra ser divertido, hein? Mas não tava divertido não gente. Estar no laboratório de serigrafia por seis horas direto (e nem lembrar de comer) e sair de lá com resultados que eu não achei que conseguiria, ou passar horas batendo cabeça tentando entender como aquela dobra vai virar livro, ou passar o dia todo fazendo letterpress, ou andar pela cidade sentindo esse ventinho gelado, ou virar a noite no laboratório da faculdade fazendo um projeto que nem vale nota, sentar no sofá bordando uma coisa que ninguém vai nem ver, ou testar canetas novas, ou custar pra entender aquele livro em inglês (coisa que eu achei que ia ser fácil à essa altura), ou conhecer aquele restaurante baratinho aqui na esquina que eu nunca tinha ido… isso sim tava muito divertido.

Então nesses momentos finais aqui decidi que cansei de nessa vida ficar me forçando a caber nesse perfil de pessoas aventureiras, viajantes e impulsivas que se divertem tanto. Eu prefiro me divertir horrores debaixo da minha cobertinha olhando pra essa chuva linda na janela por agora. E tá tudo bem, cada um se diverte do seu jeito, ninguém tá errado e chega desse FOMO (fear of missing out – medo de perder a diversão).

O mais legal das pessoas é que elas são diferentes.