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Sobre morar do outro lado do mundo

Sobre morar do outro lado do mundo

Há um tempo estava querendo começar a escrever sobre como tem sido morar do outro lado do mundo. Sobre como é acordar enquanto seus conhecidos, do outro lado, estão indo dormir. Sobre estar à frente no horário e ao mesmo tempo sentir-me perdido e atrasado em relação as notícias e acontecimentos, que, por muitas vezes, eu até preferiria ficar sem saber.

Estou há um pouco mais de sete meses morando na cidade de Adelaide, localizada no Sul da Austrália. Praticamente 13 horas de diferença do horário no Brasil. Nesse tempo todo, muita coisa tem mudado, no mundo e como eu tenho o visto.

South Australian Health and Medical Research Institute (SAHMRI)

South Australian Health and Medical Research Institute (SAHMRI)

Nesses meses mudei totalmente a minha realidade. Saí da correria. Fugi do caos cotidiano. E vim parar em um local praticamente desconhecido. Mais tranquilo impossível. Uma cidade relativamente pequena, porém grande em relação ao número de regras. Não podemos beber na rua. Não pode atravessar fora da faixa. O sentido de circulação dos veículos é pela esquerda, ou seja, tudo ao contrário. Os estabelecimentos fecham, em sua maioria, às 17 horas. Os ônibus sempre chegam no horário marcado. Não tem cobrador. Você paga as suas compras no supermercado. E até os artistas de rua são contratados. E tudo funciona de forma muito organizada.

Em minhas primeiras impressões sempre me perguntava como tudo aqui poderia ser tão bonito e tão funcional. Ao caminhar com um amigo francês pelas ruas daqui, em sua primeira visita à cidade, ele a definiu como uma cidade em que tudo aqui parece ser feito de papelão. Como se fosse um cenário de filme onde tudo, aparentemente, funciona bem.

: Foto tirada no subúrbio que eu moro, Mile End, representa bem o estilo das casas pelos subúrbios aqui

Foto tirada no subúrbio que eu moro, Mile End, representa bem o estilo das casas pelos subúrbios aqui

Atualmente, depois desse tempo morando aqui, parece que agora já faço parte desse cenário desse filme. E assim como eu, várias pessoas de outras nacionalidades. A quantidade de pessoas que vieram dos países asiáticos para cá foi que o que mais me impressionou na Austrália. Além disso, a forma na qual o país recebe essas pessoas: os mercados têm sessões dedicadas a alimentos da cultura asiática, vários bares e restaurantes de comida indiana, árabe, tailandesa, chinesa, japonesa, dentre outras coisas para um país que está se adaptando à imigração. Em Adelaide, alguns aspectos da cultura aborígene, pertencente aos habitantes originais do continente, também são fortemente encontradas. Devido a isso, projetos que visam revitalizar o significado do que é ser realmente um “aussie”, como o do artista Peter Drew, têm ganhado força por aqui, intensificando a importância dos imigrantes para a Austrália desde o século passado.

Video do projeto: https://vimeo.com/152451181

What is a real aussie?” – Peter Drew

What is a real aussie?” – Peter Drew

Junto a semana dos exames e projetos finais, o inverno está chegando por aqui. Engana-se quem acredita que aqui só faz calor e que posso ir para a praia todos os dias. As estações do ano aqui são bem marcantes. Já passei pelo verão rigoroso de 40°C, em que as praias e os parques eram minha segunda casa. Adelaide foi uma cidade projetada, inspirada pelo movimento das cidades-jardim, isso faz com que ela tenha muitas praças públicas e grandes parques. Moro em um subúrbio que fica entre duas praias importantes de Adelaide. E agora o inverno está chegando e a cidade se modifica completamente. Como tudo o que ocorre na cidade está localizado no centro comercial (CBD), raramente eu pego o caminho para ir em direção às praias que ficam em áreas mais distantes.

Foto em Glenelg, a praia mais famosa de Adelaide

Foto em Glenelg, a praia mais famosa de Adelaide

O tempo realmente corre quando estamos aqui. E confesso que muitas vezes senti muita saudade do Brasil (e principalmente da comida). Mas ao mesmo tempo não quero ir embora daqui. Nesses meses vivenciei tanta coisa, desde aprender a cozinhar, dirigir carro no outro sentido, comer carne de canguru e até, infelizmente, atropelar um pela estrada.

Acredito que aqui, diferentemente da correria que tinha no Brasil, pude apreciar mais o dia. Passei a ter tempo para observar sempre o pôr do sol. Como anoitecia por volta das 21 horas, cada dia era um “espetáculo” diferente no céu, com cores, nuvens e formas diferentes. E com isso, quando o sol estava indo, eu sabia que ele estava chegando no Brasil para acordar quem estivesse do outro lado.

O pôr do sol Hallet Cove, Adelaide

O pôr do sol Hallet Cove, Adelaide