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Sobre pequenos problemas do cotidiano

Sobre pequenos problemas do cotidiano

Algumas vezes tanto no Brasil quanto no exterior as coisas não saem da forma que planejamos (ok, quase nunca saem realmente da forma que planejamos) e, quando crianças, nossos pais que acabam lidando com os erros de planejamento ou problemas inesperados mais graves. Mas, eventualmente, começamos a nos aventurar nesse “maravilhoso” mundo.

Depois de alguns anos morando sozinho, comecei a perceber que não importa o problema de planejamento, eu sempre posso ter a certeza que vou continuar respirando mais um dia. E eventualmente comecei a desenvolver melhor minha paciência e até a rir de algumas situações menores e sem risco real. Apesar que ainda preservo grande parte da minha natureza preocupada e ansiosa.

E é principalmente sobre essas situações que irei escrever hoje.

Mudar-se para um país cujo idioma você não domina pode ser assustador no começo. Afinal, é como voltar a ser analfabeto depois de anos. Só que tendo também a incapacidade de entender o que as pessoas falam, caso elas não dominem também o inglês.

Duas semanas atrás minha geladeira quebrou. PUF, parou de funcionar do nada (e a água que escorreu fez questão de cair na gaveta de baixo onde eu guardava meus CDs. SIM, eu compro CDs. Quase perdi alguns nisso, mas consegui salvar todos sem maiores danos). Era um dia antes de 30 de abril, que é quando começam as comemorações do primeiro de maio por aqui. Levei meus alimentos para a casa de um amigo brasileiro e me preparei para ligar para os responsáveis pela manutenção dos apartamentos (que praticamente não falam inglês).

Após uma ligação relativamente confusa, estava combinado que viriam ver o que aconteceu por volta das nove da manhã do dia seguinte. Confiando na pontualidade finlandesa, coloquei meu despertador para oito e quarenta da manhã. Pois é, bateram na minha porta oito e vinte. Atendi a mesma com cara de morto mas feliz porque iriam resolver meu problema. A princípio, a mulher olhou minha geladeira e disse que voltaria com outra pessoa qualquer hora do dia.

Ok então, eu tinha planos de sair de casa de tarde e estava torcendo para que viessem antes disso. E vieram! Veio essa mesma mulher e outro finlandês que analisou minha geladeira e deu o parecer final: Eu iria precisar de outro aparelho pois esse já havia falecido na noite anterior. Fui informado que viriam trocar por volta do meio dia. Claro, fiz o que todo mundo provavelmente tentaria fazer nessa situação: perguntar o que raios tinha acontecido com minha pobre geladeira. Perguntei umas três ou quatro vezes “what happened with my fridge?”, “why did it broke?” e coisas do tipo. Em todas a mulher que me ajudava fez cara de confusa e me falou que viriam por volta do meio dia. Na última vez ela até escreveu em um papel achando que era isso que eu não estava entendendo. Tudo bem, eu só aceitei que existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia e provavelmente foi algo do tipo que atacou minha pobre e indefesa geladeira.

Armário com a antiga geladeira

Armário com a antiga geladeira

Terceira parte: por volta de meio dia e vinte ouvi uma batida em minha porta e logo em seguida abriram sem que eu pudesse chegar na porta. Eram os míticos portadores da minha salvação! O que aconteceu depois é relativamente confuso. Começaram a esvaziar parte do meu armário (a geladeira é encaixada no armário) e arrancaram minha velha geladeira do lugar. (Não antes de um deles que pouco falava inglês me perguntar se eu não gostava de batatas, já que praticamente só tinha macarrão no armário).

Depois disso vieram com uma fita métrica e começaram a dizer com um forte sotaque finlandês “WRRRONG FRRRRRIDGE, WRRRONG FRRRRRIDGE”. Antes que eu pudesse imaginar porque raios a geladeira era errada, começaram a arrancar pedaços do meu pobre armário na minha frente e me mandar esvaziar a parte de cima de onde ficava a geladeira. Eis que chega minha nova geladeira: era muito maior que a anterior, provavelmente encomendaram a errada e era isso que ele queria dizer. No fim, tudo acabou com um final feliz e não tive de pagar nada pela geladeira, já que não quebrou por culpa minha.

A nova geladeira... WRRRONG FRRRRRIDGE :)

A nova geladeira… WRRRONG FRRRRRIDGE

A questão é: mesmo sem que possa haver realmente boa comunicação, nós nos adaptamos. Por exemplo: desde que cheguei na Finlândia consegui aprender um vocabulário de extrema importância para minha sobrevivência: “sem tomate”, “sem cebola” e “sem pepino” em finlandês. Tanto faz saber me apresentar no idioma, eu só quero minha comida sem esses três cavaleiros do apocalipse.

Uma outra vez nós fomos para uma loja que vendia algumas lembranças ligadas ao país e a única funcionária era uma senhora pequenina que não falava nada de inglês, mas juro: foi o melhor atendimento que tive no país devido à simpatia e boa vontade. Ela nos mostrava os preços na tela de uma calculadora, sempre sorrindo e simpática. Eu estava vendo um chapéu do povo sami (povo indígena do norte da Europa) e ela pegou e começou a tentar enfiar na minha cabeça. Quase perdi o pescoço no processo mas descobri que servia!

Chapeu dos quatro ventos

Chapéu dos quatro ventos

Claro, também tem os bêbados que nos param eventualmente nas ruas de noite e tentam falar algo em finlandês.

São situações extremamente simples e de pouco/nenhum risco, mas que no começo provavelmente me deixariam um pouco apavorado pela falta do domínio de um idioma comum, mas que hoje são apenas parte da experiência!

E para ser sincero, mesmo quando tivemos alguns problemas com recebimento de bolsa no semestre passado e começamos a comer o que era mais barato todo dia (macarrão com bacon) encontrávamos motivo para rir e fazer piada de nossa própria situação. Mas nessa situação foi difícil evitar o desespero por achar que o dinheiro não ia dar. Mas deu!

Então, aos poucos, vamos aprendendo que os problemas não são tão grandes quanto parecem e podem ser muito mais leves do que pessoas ansiosas (como eu) tendem a fazer parecer. E um adendo: sair falando o que quiser em português nas ruas sabendo que ninguém vai entender é uma sensação indescritível e maravilhosa. Estou apenas esperando para ver quantas gafes cometerei ao voltar para o Brasil e continuar falando de tudo em português como se ninguém entendesse…