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Sobre retornos

Sobre retornos

Passados oito meses do início do meu intercâmbio, já é hora de começar a pensar no retorno que, em grande parte, se assemelha com os meses anteriores ao início da viagem.

Antes da viagem é tudo muito confuso, cheio de incertezas, com um processo que corre de forma pouco clara. E, sinceramente, pouca coisa mudou. Nesse caso, peço algumas informações para brasileiros que já passaram pelo processo da volta, como fiz antes de vir para cá… São as melhores fontes de informação sobre isso (e, ainda assim, muitas vezes nem eles tem certeza do que realmente aconteceu).

Em meio à consulta de preços de passagens, informações sobre alfândega, fim de aulas, planejamento de trajeto, algumas emoções em conflito acabam tomando conta. Claro, a saudade da família e dos amigos existe e é forte, porém, o que mais significa o retorno?

Desde o meio do ano passado eu “travei” minha vida no Brasil e comecei (mesmo que sabendo que seria apenas por um período de tempo) uma nova vida em um novo país. Tudo por aqui era (e ainda é, de certa forma) uma novidade. E isso era constante, começando com as primeiras palavras em finlandês no aeroporto de Helsinki até o clima. Até o ar que respirado e as cores vistas trazem uma sensação diferente (mas ainda com uma certa impressão de que tudo é, de certa forma, familiar)… É difícil explicar.

Depois de um período cheio de novidades, apesar da saudade, é natural que exista um certo medo e desânimo. Aqui vivemos experiências e adquirimos consciência de coisas que antes não faziam parte de nosso cotidiano. Por exemplo, me dei conta de que eu nunca percebi o que era me sentir livre e seguro até sair pela primeira vez de madrugada na rua sozinho com o celular em mãos sem precisar me preocupar com segurança.

Então, os sentimentos tornam-se conflitantes. Saudade contra desânimo. Claro, gosto muito do Brasil mas, em todos esses anos, nunca havia encontrado um lugar que me desse tanto prazer e liberdade em chamar de lar. Kajaani me mudou e mudou meu coração de forma que eu sequer podia imaginar. E continua mudando. A cada estação que passa, sinto que já não sou a mesma pessoa de antes.

E, apesar da saudade, é difícil voltar para a mesma vida de meses atrás quando já não se é o mesmo.

Alguns dias atrás tive um sonho que considerei extremamente simbólico. Eu havia voltado para o Brasil e estava indo para casa quando começou a chover. Assim que as primeiras gotas molharam meu rosto, percebi que elas não caíam como aquelas que caem por aqui. E, no sonho, fui tomado por uma grande angústia e comecei a chorar. E acordei chorando.

Chuva em Kajaani

Chuva em kajaani

A partir daí resolvi olhar ainda mais para o céu e observar a mudança das estações com mais afinco, pois são essas memórias que irei resgatar após a volta e me deixarão com um sorriso no rosto. Após isso, minhas caminhadas sem direção se tornaram mais frequentes.

Também percebi que essa sensação de voltar exatamente para a mesma vida de antes não é tão real. Pois muita coisa mudou nesses meses. Não deixa de ser também uma forma de novidade.

Então, sobre o que significa o retorno… Para ser sincero, eu creio que ainda estou descobrindo o que significa para mim, mas, por enquanto, meu palpite é que o retorno é o que nos prepara para aproveitar ao máximo o presente sem deixar de sorrir para o futuro ou abraçar o passado. Ao final, tudo se complementa.

Céu de Kajaani

Céu de Kajaani