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Sobre se sentir em casa

Sobre se sentir em casa

Uma das coisas que mais me fez ansiosa enquanto no Brasil era pensar sobre a minha primeira semana aqui na Austrália. As primeiras semanas são sempre uma incógnita pra gente porque você não conhece NADA do lugar que você vai morar por um ano, nem ninguém (mesmo já tendo conversado com as pessoas do seu edital no Facebook, acredite, não é a mesma coisa).

Em alguns editais do CsF a moradia é definida e acertada antes mesmo de você chegar no seu país. Você não precisa se preocupar em usar parte da sua bolsa para pagar aluguel e demais contas, e principalmente, não precisa se preocupar em procurar nada. Não foi isso o que aconteceu no meu edital. Imaginem uma pessoa que morou com a família na mesma casa por 19 anos, além de precisar aprender a se virar sozinha dentro de uma casa, ter que procurar seu lar, lidar com contratos e administrar contas e despesas (!?!!). A minha sensação foi de estar completamente perdida.

Quando se trata de achar um lugar pra morar, o melhor conselho que recebi foi deixar pra olhar algo definitivo quando já estivesse na Austrália e pudesse visitar o lugar e ver detalhes que as fotos de sites imobiliários não mostram. Eu tinha algumas ideias do tipo de moradia que eu queria e noção das que eu não poderia ter. Por exemplo, sabia que era incogitável morar sozinha com a bolsa provida pelo CNPq e que provavelmente dividiria apartamento com uma ou mais pessoas, brasileiras ou não.

Levando isso em consideração, a primeira providência que tomei, ainda no Brasil, foi reservar um hostel para a minha primeira semana. O hostel é uma opção mais barata e menos confortável que um hotel, muito usada por mochileiros e jovens com pouca grana (oi!). E, DEFINITIVAMENTE, algo provisório. Eu tive a impressão de que o hostel é feito com a intenção de te fazer querer ir embora, e as pessoas com quem dividi quarto não fizeram questão nenhuma de colaborar para o contrário. As meninas deixavam malas abertas no meio do corredor para a porta, espalhavam coisas pelo chão, esqueciam o celular no quarto com o despertador programado pra 7 da manhã, apagavam as luzes completamente às 8 da noite, roncavam e pra completar, ignoravam completamente minha existência. Eu não via a hora de arranjar um lugar em que eu pudesse, pelo menos, escolher o que vestir com as luzes acessas (imagine tentar achar roupa em uma mala de 32kg usando como única fonte de luz a lanterna do celular).

Logo que cheguei aqui, conheci algumas meninas do meu edital e começamos a procurar apartamento juntas. Foram tardes de pesquisa em sites de imobiliárias, muitas visitas a apartamentos e formulários de interesse preenchidos até encontrar algo que realmente nos agradasse. Nós demos prioridade para o melhor custo-benefício, ao invés de para o mais barato… Tínhamos algumas preferências, como boa localização e estrutura, e possibilidade de mudança o mais rápido possível. Mas o fundamental mesmo era a localização, uma vez que não temos carro e o transporte público aqui é bem caro.

Home yellow home

Home yellow home

Não foi difícil pra mim encontrar uma colega de quarto, já que éramos um grupo em número par. Como não nos conhecíamos direito, as duplas se formaram meio aleatoriamente, ao longo do processo de procura dos apartamentos. E eu fui incrivelmente feliz com a escolha da minha (!!!). Nós temos bastante coisa em comum e somos (naturalmente) organizadas, o que pra mim é uma das qualidades mais importantes pra manter uma casa(/mesa/vida/qualquer coisa no mundo). Ainda não vimos necessidade de separar tarefas domésticas, já que ambas temos o hábito de manter as coisas em ordem e, na medida do possível, limpinhas. O segredo pra uma boa convivência com seu colega de apartamento/quarto é que sempre haja respeito mútuo e espaço pra diálogo, afinal essa pessoa será uma das mais próximas a você por um ano!

Eu e a Aline, minha colega de apartamento

Eu e a Aline, minha colega de apartamento

A RMIT (minha universidade) foi um dos principais motivos de eu ter escolhido vir pra Austrália. Ela é uma das melhores do mundo na nossa área! Ao ver as fotos, fiquei ainda mais empolgada pra conhece-la pessoalmente. A dinâmica dela é totalmente diferente de tudo que eu já conhecia, mas eu não tive nenhum problema em me adaptar. A estrutura pra receber intercambistas é incrível e os professores são muito solícitos e estão sempre dispostos a ajudar no que for preciso.

O que me fez realmente sentir que estou onde eu deveria estar, e eu acho que não é apenas uma característica da faculdade, mas da sociedade australiana em geral, é o ritmo que eles levam a vida. Eles reconhecem e respeitam o tempo que se leva pra fazer algo e valorizam a qualidade do que se é construído. E, principalmente, eles dão muita importância ao tempo livre e em usá-lo em pró do seu bem-estar. Pra vocês terem ideia, uma vez um dos meus professores, o Niko, nos pediu pra realizar o trabalho o mais lento possível e nos deu uma aula incrível a partir da metáfora de fast versus slow food. Sério. Eu sempre fui mais lenta pra algumas coisas, e não poderia ser diferente sendo a perfeccionista e detalhista que sou…e me deixa triste pensar na minha perspectiva profissional no Brasil e perceber que talvez o meu ritmo de fazer as coisas nunca seja compreendido e/ou visto de maneira positiva pelo mercado.

Outra coisa que pra mim fez muita diferença aqui é como eu me locomovo entre os lugares. No Brasil eu praticamente só ando de carro. Aqui, sem carro e com o transporte público custando uma “fortuna”, a minha solução é usar o que eu tenho: minhas pernas. Eu vou a pé desde a faculdade até a balada (lembram do que eu falei no texto anterior sobre salto alto ser totalmente inútil aqui? Então…). E como eu moro pertinho de tudo, isso não é nenhum sacrifício. Vale ressaltar que o transporte público aqui é de uma qualidade inquestionável. São eles: Tram (uma espécie de bonde), ônibus, metrô e trem. Sem contar que existem ciclovias por toda a cidade, um grande incentivo ao uso de bicicletas. Sem dúvidas, desses que citei, o mais popular é o tram. Todos eles são interligados pelo mesmo cartão, o Myki, que você consegue adquirir e recarregar em qualquer Seven Eleven (uma lojinha de conveniência muito comum aqui) ou nas próprias estações mesmo.

Mapa do bondinho para pessoas perdidas (como eu)!

Mapa do bondinho para pessoas perdidas (como eu)!

Uma das coisas que eu acho mais complicadas de fazer (e falar!) é a administração da bolsa aqui. O primeiro motivo é que a Austrália é um dos países mais caros do mundo! Ou seja, se você pensa em renovar seu guarda-roupa, comprar os mais novos lançamentos tecnológicos do mercado etc, aqui não é o seu lugar. Eu fiquei bem chocada quando um dia me dei conta de que sinto falta dos preços brasileiros.. É claro que nem tudo é absoluto, e eu consegui adquirir meu MacBook por metade do preço do Brasil (mas ainda assim, paguei caro). O segredo é pechinchar. O segundo motivo é que, na teoria, eles nos prometem datas certinhas para o depósito da bolsa, mas pelo menos no meu edital, a prática se mostrou um pouco diferente. Não que eles tenham deixado de nos pagar (até agora), mas o processo foi um tanto irregular (antecipando pagamentos, adiando outros e afins). E o terceiro é que nós precisamos dividir a bolsa entre nossos gastos pessoais e contas diversas (aluguel, água, luz, celular, internet etc).

Eu como ótima iniciante em administração de finanças, mandei um pedido de socorro à minha mãe e ela me apresentou a um aplicativo muito incrível que eu uso pra controlar TODOS os meus gastos: O Mobills. Eu uso a versão gratuita, com menos funções que a paga, mas que me atende tranquilamente. É bem simples, ele permite que você adicione sua receita, ou seja, o quanto de dinheiro você tem, e suas despesas, separadas por categorias, à medida que elas ocorrem. Ao acrescentar dados, ele gera instantaneamente um gráfico mostrando detalhes do seu consumo a partir das categorias que você usa e outro fazendo uma comparação do dinheiro que você tinha no início do mês e o quanto gastou até o momento.

Se a bolsa é suficiente? Pela minha experiência, percebi que pra pagar as contas e manter uma vida “digna” (nada de almoçar arroz com ketchup), sim. Mas pra viajar e aproveitar a cidade (e ainda ter tudo aquilo que eu disse), não. No fim das contas, a lição é simples: pague suas contas e defina suas prioridades. Escolha gastar o resto do seu dinheiro com o que considerar mais importante pra você… no meu caso, escolhi aproveitar esse país o máximo que eu puder, uma vez que a saudade daqui já bate na porta.

 

PS: Essa sensação de saudade antecipada é uma das coisas mais bizarras que já senti. Não, não sei explicar o que é e tenho a impressão de que seja o tipo de coisa que eu nunca entenderei completamente.