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Solitude

Solitude

O contraste em um mundo cada vez mais turbulento.

Na minha vida, a solidão nunca foi um problema com o qual tive que lidar. Graças a Deus, sempre estive cercado por relacionamentos sólidos, tendo o amor de uma família presente e estável, e a alegria de amizades verdadeiras ao longo do caminho. Obviamente, houve uns momentos e outros que me senti sozinho e etc, mas nada que escurecesse a visão ou envenenasse a alma. Sem dúvida, precisamos desesperadamente de relacionamentos reais e profundos, precisamos de convivência e companhia. De algum modo, parece que nosso ser urge por pertencer a algo, por compartilhar. Qualquer privação disso nos afeta intensamente, mais do que queremos admitir e, no fim nos sentimos sufocados e emocionalmente carentes.

Talvez, em uma tentativa de esquivar dessa realidade, desenvolvemos uma repulsa quase automática ao ‘estar sozinho’, fisicamente sozinho, e procuramos logo algo ou alguém que rompa logo o silêncio ensurdecedor. Mas sabemos muito bem que se pode estar rodeado de pessoas e ainda se sentir solitário. Na verdade, a resposta nunca foi essa. A companhia temporária nunca vai ser suficiente. E por cima disso, ainda criamos um mundo que funciona em um ritmo alucinado supersaturado de compromissos, que parece não nos dar opção além de um cotidiano insustentável no qual o tempo nunca é suficiente. Enfim, meu ponto é que desaprendemos a estar sozinhos, sozinhos e completos. A solidão é terrível, sim, mas enquanto essa representa a dor de estar sozinho, existe a alegria ou a paz em estar sozinho, a solitude.

Há muito tempo tenho reservado um momento nos meus dias para estar sozinho, orar, me alinhar com Deus e recalibrar minha bússola interna. Sei que isso faz toda a diferença, e as principais decisões da minha vida saíram ou foram confirmadas nesses momentos de quietude. Entretanto, esses momentos eram minorias de uma realidade tão agitada e cheia de atividades quanto a de qualquer outra pessoa.

Ao sair do Brasil, a maior mudança pra mim foi a ausência das pessoas que sempre estiveram comigo e a inversão de um dia-a-dia que era repleto de companhias, pra um no qual estou a maior parte do tempo sozinho. Por si só, isso não se mostrou ruim nem bom. No começo era apenas uma realidade diferente que trazia novas liberdades e inseguranças. Mas hoje, depois de oito meses vivendo assim, passando incontáveis dias em casa sozinho, fazendo viagens, descobrindo novos lugares, indo em restaurantes e caminhando por aí sozinho, começo a descobrir a riqueza escondida em momentos de solitude. Esses, se balanceados com momentos saudáveis de relacionamento e amizade verdadeira, podem se tornar especialmente alegres e recompensadores, abrindo uma janela de sobriedade e reflexão.

No silêncio, me tornei mais sábio. Compreendo mais profundamente o valor das palavras, e consigo melhor discernir os momentos que é mais proveitoso apenas ouvir. Na quietude, me tornei mais sensível à realidade e às pessoas ao meu redor. Entendi que cada uma delas, por mais figurante que pareça ser, tem uma vida tão complexa e real quanto a minha. Cada uma foi criança um dia, ralou o joelho, sonhou com o futuro, se apaixonou, sofreu, lutou contra as dificuldades e leva uma vida que, por mais incrível que soe, continua depois que saem do meu campo de visão. Me tornei mais observador e supreendentemente mais contemplativo, considerando que sempre fui uma pessoa pragmática, de ação, de iniciativa, de movimento, um verdadeiro task-oriented ocupado demais pra me perder em pensamentos. Curiosamente, creio que tudo isso me ajudou a entender melhor o valor da companhia, a desfrutar melhor esses momentos.

Além disso, passei a olhar pra pessoas mais velhas e tentar imaginar as suas histórias, suas memórias e esperanças, tentar imaginar o tempo que eram da minha idade e olhavam o mundo através das lentes da juventude. E ai, de repente entendi, de uma maneira arrebatadora que, realmente vou envelhecer. Vou envelhecer e vou lembrar desses dias aqui e de todos os caminhos que andei. Não que tenha esquecido que o tempo passa pra todos, mas talvez pela primeira vez enxerguei a brevidade da vida de uma maneira tão clara e tão doce. Me obriga a definir as prioridades e me livrar das distrações. Me faz pensar no legado que quero deixar. Que diferença eu vou fazer? Que marca eu vou deixar no mundo?

YOLO. ‘You only live once’, diz a sabedoria popular. Make sure it counts for eternity.

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