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Tá servido? Iguarias holandesas

Tá servido? Iguarias holandesas

Quando me falaram que eu deveria escrever para o blog, eu já sabia que iria acabar falando sobre comida, simplesmente porque comida é um fator primordial e incondicional em minha vida. Só não sabia que me sentiria obrigada a abordar o assunto tão cedo.

No geral tenho me alimentado até bem, considerando que estou morando sozinha pela primeira vez, mas o fato daqui não existir almoço complica bastante as coisas. Meus horários na universidade são geralmente das nove da manhã às quatro da tarde. Sem aquela parada ao meio dia para almoçar. À medida que as pessoas sentem fome, elas vão comendo qualquer coisa que trouxeram na mochila: biscoito, bolos ou, na maioria das vezes, sanduíches.

Quem precisa de Nutella com essa maravilha de sanduíche holandês? (sinta a ironia em meu tom)

Quem precisa de Nutella com essa maravilha de sanduíche holandês? (sinta a ironia em meu tom)

Nunca me passou pela cabeça como as pessoas poderiam ser tão apegadas aos seus hábitos alimentares. E eu me incluo nessas pessoas. É difícil não achar que a forma como você se alimenta é a certa, e a dos outros errada. Por exemplo: não consigo aceitar o fato de que a letã (é assim que se chama quem nasce na Letônia?) tome seu café sem coá-lo. Para mim isso não é apenas estranho. É errado. Um crime contra o café. E não é que ela não sabe fazer café. Segundo ela é assim que todos na Letônia preparam seu café. O filtro só é usado nas máquinas.

Como uma boa brasileira, é óbvio que eu não abriria mão do arroz. Nossa. O arroz foi A discórdia aqui em casa. Eu disse que iria prepará-lo e comecei a picar a cebola e o alho. Normal. Mas todos aqui ficaram em choque. “Por que alguém usaria alho e cebola no arroz??”. E esse foi só o início da discussão. O chinês queria de toda forma colocar o arroz na sua máquina para me mostrar como se prepara corretamente. Ele não entende por que alguém usaria uma panela se existe a máquina (ps: sim, ele veio da china com uma máquina de arroz na mala).

Enquanto eu acho o arroz que ele prepara extremamente seco e sem gosto (já que não usa temperos ou óleo), ele acha que o meu tem um gosto forte demais. E a letã simplesmente discorda de nós dois, porque ela ferve a água e depois joga o arroz.

Para os europeus é inconcebível a ideia de comer arroz com feijão. Arroz, feijão e batata? Jamais. Ou se come arroz, ou feijão ou batata. E na imensa maioria das vezes é a batata quem vence. E os holandeses gostam de amassar a batata com algum outro vegetal, daí a comida fica parecendo uma papinha de neném. Sei que a ideia parece ruim, mas ainda assim é melhor do que o haring, outro prato típico daqui, que é basicamente um peixe cru com cebolas. Segundo eles “it tastes like ocean”, então concluo que o oceano deles tem um gosto horrível, porque nunca mais me atrevo a comer essa iguaria.

Maneira correta de se comer Haring

Maneira correta de se comer Haring

Aliás, muitas especialidades holandesas têm me traumatizado. Eu achei que seria impossível me desagradar com doces, mas mudei minha opinião após provar o “drop”, uma bala que na verdade é salgada. Me senti mastigando um pedaço de pneu. E não dá para entender o fascínio dos holandeses por abacate. Tem abacate em tudo. Tem abacate até mesmo nos sanduíches do Subway e no sushi. Se você for holandês, você pode colocar abacate onde seu coração mandar.

Drop de todos os formatos. Por que alguém daria isso a uma criança?

Drop de todos os formatos. Por que alguém daria isso a uma criança?

Mas nem tudo são discórdias e lamentações. Apesar do choque inicial, temos aprendido a aceitar e apreciar a culinária uns dos outros. Preparei tapioca para meus amigos, e eles queriam saber onde poderiam encontrar por aqui esse “taco brasileiro”. A letã agora usa alho em seu arroz. Os chineses simplesmente amaram soutzoukakia (comida grega). Quanto a mim, admito, tenho me alimentado usando chopsticks (aquele palitinho que os chineses usam para comer). Mas que coisa, não é mesmo?