Pages Menu
Viajando entre as fronteiras do conhecimento

Viajando entre as fronteiras do conhecimento

Nos últimos meses dediquei-me à compreensão do papel das imagens aos seres humanos; esse ser social que se difere dos outros seres orgânicos através da complexificação. Inevitavelmente, compreender as imagens e as representações visuais que criamos me fez percorrer também o campo da materialidade, desde o que produzimos até as estruturas que comportam todos os sistemas de códigos e linguagens que estabelecemos.

O que acontece é que ao interferir estética e ideologicamente no mundo (afinal, o design age dessa forma, voluntária ou involuntariamente) julguei necessária a compreensão do mundo, das regras formais estéticas e da ideologia. Não que eu acredite em uma separação entre a prática e a teoria, mas compreendo que no momento atual, pensar é a melhor ação possível para agir criticamente.

Sendo assim, busquei caminhos que pudessem me auxiliar nesse processo, e é claro que o estudo da estética presente no trabalho de grandes pensadores do século XX, como Gyorgy Lukács, Theodor Adorno, Walter Benjamin e Herbert Marcuse, possibilitaria-me ter base suficiente para o tipo de análise que eu buscava. Apesar do assunto sério, as aulas de Marxism and Aesthetic Theory eram também recheadas de bom humor e de uma abertura incrível para o diálogo. Tivemos discussões riquíssimas e a turma pequena possibilitava e garantia o envolvimento de todos com o conteúdo.

A matéria faz parte da grade do curso de História da Arte e Estudos Críticos e exigia uma série de pré-requisitos. Como só tenho um ano aqui, tudo que eu precisei foi da autorização do professor – este que foi muito atencioso e que tive a chance de ter excelentes diálogos, dentro e fora da sala de aula.

A aula era dividida em duas partes, no início assistíamos a um vídeo que variava de documentários e vídeos informativos à palestras, e na segunda parte havia a apresentação dos textos da semana. Durante o semestre cada aluno foi responsável por apresentar dois textos. Todo o material foi disponibilizado no primeiro dia de aula e se trata de uma seleção incrível com aproximadamente 800 páginas de textos sobre a Teoria Crítica, escolhidos cuidadosamente. Além dessas apresentações, desenvolvemos um artigo de 14 páginas como projeto final do semestre. O objetivo era investigar questões estéticas debatidas em sala de aula e havendo a possibilidade de trazer autores de fora também (inclusive, fiquei muito feliz de ver que os canadenses conhecem autores brasileiros como Michael Lowy e Paulo Freire, tanto nessa aula quanto em outras). A minha escolha foi tratar sobre as confluências e divergências da análise de Hannah Arendt, Theodor Adorno e Walter Benjamin sobre a obra do escritor Franz Kafka. Um desafio e tanto para um estudante de design escrever sobre literatura, mas não apenas foi possível como me senti realizado por explorar um campo diferente.

Em tempos sombrios de “Escola sem Partido” e outras aberrações tupiniquins, foi bom ver um local onde o papel do ensino é respeitado: pensar criticamente, mesmo que isso signifique repensar o chão em que pisamos – sem esquecer jamais de dar um passo a frente para não corrermos o risco de cair no abismo.