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Virando européia (ou tentando)

Virando européia (ou tentando)

Na cabeça de cada aspirante a viajante existe um conjunto de fantasias relacionadas ao lugar de destino desejado. Você, estudante inexperiente de saída para seu primeiro intercâmbio (por exemplo, eu) imagina como vai ser incrível a experiência de uma nova cultura, anseia por estar longe de casa e dos problemas corriqueiros aos quais está acostumado desde sempre e quer, acima de tudo, mergulhar nas inúmeras atividades que esse novo mundo pode te oferecer.

Tudo verdade, mas permita-me tirar a lente romântica que eu geralmente coloco em tudo que observo ou escrevo. Passar um breve período de tempo em um lugar desconhecido é como um sonho, sim, mas quando você se dá conta que vai passar os próximos nove meses ali, é preciso uma visão um pouco mais pragmática da situação. Afinal, o que acontece quando você deixa de ser turista e passa a ser oficialmente um morador daquela cidade?

Obviamente, o mais importante a ser notado é: os costumes são diferentes. O engraçado é que não paramos para refletir no quão verdadeira essa afirmação é, até que reparamos nos detalhes:

1. Comida, transporte, lazer

Fui avisada antes de chegar nas terras européias que aqui na Irlanda a refeição principal é o jantar, servido por volta das 17h. De fato, não existe o costume de um bom almoço como temos no Brasil – durante todo o dia os irlandeses vão de um lado ao outro da cidade comendo seus lanchinhos e tomando seus copos de café ou chocolate quente (esse último virou meu vício, nada melhor para se manter acordado nesse frio de 10ºC). Como Dublin é quase uma capital brasileira pelo número de imigrantes que vem acolhendo nos últimos anos, não é tão difícil achar um restaurante de comida típica ou uma loja de esquina que venda Toddy, tapioca, chá mate e outros artigos que eu jamais imaginaria sentir falta quando chegasse aqui. Infelizmente, nada de jabuticaba.

Apesar da comida de rua ser barata e desses restaurantes com gostinho de casa (ou quase), cozinhar em casa ainda é a melhor opção. Os supermercados baratos daqui são os mais regularmente visitados por estudantes e demais imigrantes – uma compra básica que dure por um mês pode sair 40 euros ou até menos. Dica: nunca converta valores, existe o risco de enfarte. Pode parecer estranho, mas os maiores gastos reais de cada um são alimentação e transporte. Na acomodação onde estamos alocados as geladeiras são pequenas, e como são oito pessoas dividindo o mesmo apartamento, não existe muita possibilidade de comprar muita comida de uma só vez.

Sobre transporte, não existem muitos segredos. O transporte público de Dublin é muito bem organizado, sendo composto por ônibus (as linhas de ônibus são bem distribuídas e o tempo de espera não chega a ser mais de 40 minutos), trem urbano e trem de superfície. O cartão utilizado para embarque, o Leap Card – similar ao BHBus de Belo Horizonte – dá ao usuário um percentual de desconto nas passagens, principalmente se você for estudante. Nesse último caso, uma recarga de 107 ‎euros dá o direito de usar o cartão por 30 dias não consecutivos, quantas vezes for necessário durante o dia. Apesar da facilidade e da praticidade, um transporte até mais comum por aqui são as bicicletas. Existe o sistema de aluguel das bicicletas públicas, mas a maioria das pessoas compra sua própria nas inúmeras lojas especializadas espalhadas pela cidade. Minha relação com bicicletas não é das melhores, mas um dia pretendo me render a esse costume também, afinal, da acomodação até a faculdade levamos em média uma hora de ônibus e até metade do tempo de bicicleta. Não que seja um grande sacrifício ficar uma hora dentro de um ônibus andando por Dublin, mas praticidade é preciso.

O transporte funcionar bem é um dos fatores que ajudam na vida noturna da cidade. Os bares geralmente ficam abertos a partir do final da tarde, mesmo que os mais tradicionais funcionem quase durante todo o dia, e os últimos ônibus passam às 23:30h. As baladas e clubes seguem aproximadamente o mesmo horário, e é comum em plena segunda-feira ver a cidade apinhada de jovens bebendo e rindo pelas ruas. Particularmente, pelo tanto que se anda na cidade durante o dia, tenho preferido passar as noites em casa assistindo filmes, lendo ou estudando.

Para quem tem dúvida sobre a bolsa que recebemos do governo e que se pergunta se ela é suficiente para vivermos bem, que fique registrado: é mais do que suficiente. Sendo responsável e não se entregando muito às tentações das lojas, muita gente (como eu) experimenta um estilo de vida que não poderia ter estando no Brasil. Sair por ai, viajar e se divertir é possível e altamente recomendado.

2. Responsabilidades de casa e problemas que podem acontecer

Como disse antes, em meu apartamento somos oito pessoas dividindo uma cozinha/sala; cada um tem seu próprio quarto com seu próprio banheiro. As responsabilidades que dizem respeito à área compartilhada são igualmente divididas, e temos reuniões regulares para feedback. Nossos quartos são, obviamente, nossa responsabilidade.

É importante ressaltar que problemas podem, e vão, acontecer com esse tipo de mudança drástica de casa e de rotina. Os costumes irlandeses e brasileiros entram em atrito em assuntos como privacidade, organização e limpeza, por exemplo. Em nossa acomodação moram aproximadamente 60 intercambistas do Ciência sem Fronteiras e outros tantos irlandeses e de outras nacionalidades – porém os brasileiros são maioria, e todos vem enfrentando certas dificuldades com relação à maneira como a acomodação é administrada. Infelizmente não existe um apoio muito bom aos estudantes internacionais, e o descaso das gerentes é notável no que diz respeito às nossas necessidades – a comunicação é falha, a organização é péssima e foi preciso muita insistência da parte de todos para que uma reunião fosse marcada para maiores esclarecimentos sobre direitos e deveres. Existem pormenores que não preciso detalhar nesse post, e não são apenas características ruins por aqui, claro, mas vale dizer que nem tudo são flores quando somos intercambistas.

3. Outro tópico importante a ser abordado é a saúde

Não são todas as pessoas que enfrentam grandes problemas de adaptação ao clima, mas se tem um aspecto que sempre fica abalado é o emocional. Estar longe da família e dos amigos por tanto tempo é difícil, e toda gripe menorzinha pode virar uma dor de cabeça de longa duração quando você está com imunidade e energia baixas. O lado bom dessa situação é que não é difícil conseguir apoio médico. Cada instituição participante do CsF é obrigada a fornecer a seus alunos um bom seguro saúde, e com a nossa faculdade não é diferente. Temos duas boas clínicas à nossa disposição, com médicos e enfermeiras prontos a nos ajudar com qualquer problema. Posso dizer muito sobre a equipe, já que minhas visitas vem sendo constantes – de dor de garganta, passando por resfriados até alergias, minha estadia na Ilha Esmeralda vem sendo recheada de emoção.

Como dizem por aí, toda experiência é válida. Apesar desses pequenos infortúnios todos estão felizes por estarem em terras distantes. Os vizinhos viraram família e a faculdade virou nossa casa. Somos metade brasileiros e metade irlandeses agora, não tem mais volta. Agora é esperar para ver o que mais a cidade está guardando para os próximos meses, sendo que de uma coisa eu tenho certeza: eu sempre vou me surpeender.